Quais os riscos do leite cru para crianças e gestantes, segundo a ciência

Leite, queijo e outros produtos lácteos não pasteurizados podem expor consumidores a bactérias e vírus capazes de provocar infecções graves. Em uma nova recomendação, a Academia Americana de Pediatria reforçou o alerta contra o consumo desses alimentos, especialmente por crianças, gestantes e pessoas que amamentam, e chamou atenção para uma nova preocupação: o vírus H5N1, associado à gripe aviária.
A declaração foi publicada nesta segunda-feira (5) na revista Pediatrics e atualiza as orientações da entidade sobre o tema. A Academia Americana de Pediatria defende que apenas leite e derivados pasteurizados sejam consumidos por gestantes, bebês, crianças, adolescentes e jovens adultos. A organização também voltou a apoiar a proibição da venda e distribuição de leite cru e de produtos feitos a partir dele nos Estados Unidos.
O leite cru é aquele obtido de animais como vacas, cabras e ovelhas que não passa pela pasteurização. Nesse processo, o alimento é aquecido a uma determinada temperatura por um período específico e, depois, rapidamente resfriado, o que elimina microrganismos causadores de doenças.
Entre os patógenos que podem estar presentes em produtos lácteos não pasteurizados estão bactérias como Listeria monocytogenes, Campylobacter jejuni, Salmonella, Brucella e Escherichia coli. A contaminação do leite pode ocorrer de diferentes maneiras, como pelo contato com fezes, pele dos animais, infecções nas glândulas mamárias ou elementos presentes no ambiente.
Dados reunidos pela Academia Americana de Pediatria mostram que, entre 2013 e 2018, o consumo de leite não pasteurizado esteve relacionado a 75 surtos nos Estados Unidos, que somaram 675 casos de doença, 98 hospitalizações e duas mortes. Quase metade dos registros, 48%, ocorreu em pessoas com menos de 20 anos, enquanto 14% atingiram crianças menores de 5 anos.
Gripe aviária é um novo motivo de preocupação
Além dos patógenos já conhecidos, a atualização destaca o vírus da influenza aviária A (H5N1) como uma ameaça emergente associada ao leite cru. O vírus, transmitido de aves selvagens para vacas leiteiras, pode atingir altas concentrações nas glândulas mamárias dos animais infectados e, consequentemente, no leite.
Como destaca este comunicado, o H5N1 pode permanecer no leite cru refrigerado de vacas infectadas por até cinco semanas. Durante o surto registrado em rebanhos leiteiros dos Estados Unidos em 2024, o vírus infeccioso foi encontrado em quase um quarto das amostras de leite não pasteurizado analisadas nas áreas afetadas.
Até o momento, porém, não foram identificados casos humanos de H5N1 provocados pelo consumo de leite cru. Mas a Academia Americana de Pediatria ressalta que a presença do vírus nesses produtos representa um risco potencial, principalmente para crianças e gestantes.
Leite cru é mais nutritivo?
Um dos argumentos usados em defesa do leite cru é que a pasteurização reduziria seu valor nutricional. De acordo com a Academia Americana de Pediatria, porém, as evidências disponíveis não sustentam a ideia de que produtos não pasteurizados ofereçam benefícios à saúde capazes de compensar o risco de infecções.
Estudos analisados pela entidade não encontraram diferenças significativas em componentes como triglicerídeos, ácidos graxos, lactose, cálcio, magnésio e zinco entre o leite cru e o pasteurizado. A pasteurização pode alterar alguns componentes, como determinadas proteínas e vitaminas, mas, no conjunto, não modifica de forma significativa o valor nutricional do alimento.
Para gestantes, a preocupação é ainda maior devido ao risco de infecções transmitidas por alimentos. A incidência de listeriose, por exemplo, é estimada em 12 a 14 vezes maior durante a gravidez do que na população em geral. A doença pode levar a complicações como aborto espontâneo, natimorto, parto prematuro e infecção grave no recém-nascido.
“Os pais podem escolher leite cru porque ouviram dizer que ele é mais saudável ou natural, mas as evidências científicas contam uma história diferente”, afirmou Mark R. Corkins, coautor da nova recomendação, em comunicado. Segundo o especialista, os produtos pasteurizados fornecem os nutrientes essenciais do leite sem expor as famílias a infecções evitáveis causadas por bactérias e vírus.
(Por Sarah Macedo)






