Uma das cópias mais antigas da Odisseia tem trecho “esquecido” por versões atuais

Uma das cópias mais antigas da Odisseia tem trecho “esquecido” por versões atuais
Um fragmento antigo de papiro da Odisseia de Homero, datado de aproximadamente 285 a 250 a.C., está agora em exibição na cidade de Nova York — Foto: Metropolitan Museum of Art

A obra Odisseia, atribuída ao poeta grego Homero, sobreviveu por mais de dois milênios documentada em diferentes versões. Uma delas, preservada em um pequeno fragmento de papiro pertencente ao acervo do Museu Metropolitano de Arte (mais conhecido pelo apelido Met), em Nova York, nos Estados Unidos, guarda uma particularidade rara: três versos “esquecidos”, que não aparecem nas edições mais modernas.

O fragmento, produzido no Egito entre 285 e 250 a.C., integra o Livro 20 da epopeia, e é considerado o primeiro fragmento da Odisseia produzido durante o período ptolomaico já descoberto. O papiro tem cerca de 2.300 anos de idade e está entre as cópias mais antigas conhecidas do poema que sobreviveram até o presente. Veja vídeo:

Trecho perdido nas versões modernas

A passagem registrada no papiro ocorre em um momento decisivo da narrativa. Depois de passar dez anos longe de casa, Odisseu finalmente retorna a Ítaca, onde precisa recuperar o seu reino e enfrentar os homens que ocupam seu palácio enquanto tentam conquistar sua esposa, a rainha Penélope.

Na cena, o herói tem uma noite inquieta antes do confronto. Atena, deusa associada à sabedoria e à estratégia, surge em sonho para tranquilizá-lo. Em seguida, um trovão lançado por Zeus é interpretado como um sinal favorável para a batalha que se aproxima.

Jarro de terracota representando Odisseu com seu icônico arco e flecha — Foto: Metropolitan Museum of Art
Jarro de terracota representando Odisseu com seu icônico arco e flecha — Foto: Metropolitan Museum of Art

É nesse trecho que estão os três versos que não fazem parte do texto atualmente considerado padrão. Isso ocorre porque, pelo papiro estar danificado bem nesse ponto, os especialistas ainda não conseguiram compreender, na íntegra, o que está escrito.

Dificilmente a tradução desse material vai mudar o rumo da história que já conhecemos. No entanto, a sua existência é significativa para ressaltar como essa história circulou desde a Antiguidade até a atualidade.

Quadro "Polifemo e Galateia em uma paisagem", que retrata outro personagem da Odisseia — Foto: Metropolitan Museum of Art
Quadro “Polifemo e Galateia em uma paisagem”, que retrata outro personagem da Odisseia — Foto: Metropolitan Museum of Art

Diferentes versões da mesma história

Basicamente, a explicação para a existência de múltiplas versões da Odisseia está na forma como esses poemas eram passados adiante. Composta por volta do século 8 a.C., a epopeia circulou inicialmente por meio da tradição oral.

Assim, em vez de depender de um livro único, a história era recitada por bardos (artistas que apresentavam poemas e narrativas diante do público). Esse processo permitia pequenas “liberdades artísticas”, nas quais o intérprete podia acrescentar trechos, deixar outros de fora ou modificar determinadas passagens.

Como destaca a revista Smithsonian, essas versões são, por vezes, descritas pelos pesquisadores como edições “selvagens” ou “excêntricas” da Odisseia. Algumas preservam versos ausentes de versões posteriores; outras registram menos trechos. Ainda assim, não costumam modificar de maneira relevante a trama.

(Por Arthur Almeida)

Astrogildo Aécio Nunes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posso ajudar?