Fraude de R$ 84 milhões no CAR: Operação Canadá mira esquema de falsificação de documentos e invasão digital de fazenda em MT

É exatamente esse cenário de vulnerabilidade que a Polícia Civil desvenda nesta terça-feira (18) com a deflagração da Operação Canadá. Conduzida pela Delegacia Especializada do Meio Ambiente (Dema), a investigação coloca sob suspeita uma rede de profissionais técnicos — incluindo engenheiros florestais e topógrafos — que teriam fraudado o Cadastro Ambiental Rural (CAR) de uma fazenda para tentar levantar nada menos que R$ 84 milhões no mercado financeiro.
O golpe digital: da invasão de senhas à terra “movida” de lugar
O esquema só veio à tona porque os donos originais da terra — considerados vítimas, assim como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) — perceberam uma movimentação bizarra nos registros oficiais.
De acordo com as apurações, o modus operandi envolveu alta sofisticação digital e burocrática:
- Invasão de sistemas: Senhas e e-mails de acesso ao sistema do CAR foram modificados sem autorização dos proprietários legítimos.
- Geometria fantasma: O desenho da área da fazenda, localizada em Confresa (MT), foi literalmente deslocado eletronicamente para outra região do estado.
- Cadastros paralelos: Foram gerados novos cadastros ambientais falsos usando o nome dos donos reais para alimentar uma esteira de documentos cartorários fraudulentos.
O uso de procurações e a tentativa de crédito milionário
Com o ambiente digital manipulado, o grupo passou a produzir o que a polícia classifica como uma ficção jurídica. Procurações públicas, substabelecimentos e escrituras falsas de compra e venda foram gerados para simular a transferência de partes da fazenda.
O objetivo financeiro da fraude impressiona: um dos cadastros adulterados serviu de base para uma avaliação rural de R$ 84 milhões. Esse laudo fraudulento foi apresentado a instituições financeiras como garantia na tentativa de captar crédito vultoso. Para fechar o ciclo de ilegalidades, há indícios concretos de pagamento de propina a um escrevente para avalizar firmas e reconhecer assinaturas em documentos falsos de arrendamento.
A extensão da operação e os alvos
Para desarticular a teia criminosa, a Operação Canadá mobilizou 54 policiais civis e equipes da Politec, contando com apoio operacional da Polícia Civil do Pará.
Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão espalhados por Cuiabá, Rondonópolis, Ribeirão Cascalheira e Tailândia (PA). Na mira da Dema estão engenheiros florestais, técnicos em agrimensura, donos de empresas de engenharia e pessoas que atuavam como testas-de-ferro ou procuradoras em cartórios. Até o momento, a investigação reforça que não há servidores da Sema envolvidos no esquema.
O cerco se fecha: o que acontece agora com os investigados?
Todo o material recolhido nas buscas desta terça-feira será submetido a uma perícia minuciosa pelo Núcleo de Inteligência da Dema.
Os alvos da operação agora respondem a um inquérito pesado que acumula acusações graves: fraude em informações ambientais, falsidade ideológica, falsificação e uso de documento falso, estelionato, corrupção ativa e associação criminosa. Para o setor produtivo e cartorário do estado, o caso acende um alerta vermelho sobre a fragilidade dos acessos digitais e a necessidade de blindagem rigorosa nos registros de propriedades rurais.
Fonte: CenárioMT






