Silêncio nas aldeias: Mato Grosso é o terceiro estado do país em mortes de crianças indígenas até 4 anos

Silêncio nas aldeias: Mato Grosso é o terceiro estado do país em mortes de crianças indígenas até 4 anos
Comunidades originárias

A infância nas comunidades originárias do Centro-Oeste e do Norte do país continua enfrentando um cenário crítico de vulnerabilidade. Em Mato Grosso, 123 bebês e crianças indígenas com idade entre zero e quatro anos morreram ao longo de 2025. O número coloca o estado na terceira posição do ranking nacional de mortalidade infantil nessa faixa etária entre povos indígenas.

A dimensão do problema ganha contornos mais severos quando observada em escala regional. Mato Grosso aparece atrás apenas do Amazonas, que liderou os registros com 306 perdas, e de Roraima, com 158. Somadas, as três unidades da Federação concentraram quase seis em cada dez (57,3%) óbitos da infância indígena catalogados no Brasil.

Os dados integram o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Em todo o país, 1.024 crianças de até 4 anos faleceram no período — um avanço amargo em relação a 2024, quando haviam sido confirmadas 922 mortes.

A tragédia do evitável: o que diz o mapa naciona

O ponto mais alarmante trazido pela publicação é a constatação de que o atendimento básico de saúde poderia ter salvado a maioria dessas vidas. Do total de 1.024 vítimas no território nacional, 586 mortes (57%) decorreram de patologias e condições classificadas pela medicina como “causas evitáveis”.

Em termos práticos, trata-se de problemas que seriam contornados com vacinação em dia, água potável, diagnóstico precoce e socorro médico imediato:

Insuficiências respiratórias: Gripe e pneumonia vitimaram 104 crianças;

Infecções gastrointestinais: Diarreia, desnutrição e quadros de gastroenterite vitimaram 117 bebês e crianças;

Período perinatal: Transtornos durante a gestação, complicações no parto e infecções neonatais também somaram altos índices.

O levantamento ressalta que o recorte estatístico disponibilizado pelas autoridades de saúde não especificou, detalhe por detalhe, as causas clínicas das 123 mortes registradas em solo mato-grossense. Por essa razão, os percentuais de doenças evitáveis aplicam-se ao panorama geral do país, sem que se possa cravar a proporção exata dentro das aldeias de Mato Grosso.

Discrepância nas fontes oficiais de saúde

Para montar o raio-x da mortalidade, a equipe técnica do Cimi cruzou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), das secretarias estaduais e da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), obtidos por meio de consultas públicas e pela Lei de Acesso à Informação (LAI).

O próprio estudo faz ressalvas sobre os gargalos de subnotificação e as divergências entre os bancos de dados do Estado:

Sesai: Monitora estritamente as populações residentes nas áreas demarcadas e atendidas pelos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs);

SIM: Capta registros formais de cartórios em todo o território nacional, incluindo indígenas que vivem em contexto urbano ou fora de territórios homologados.

A publicação do Cimi reforça ainda que a perda de vidas na primeira infância reflete um quadro mais amplo de deterioração social, que em 2025 também registrou alta nos episódios de assassinatos, assassinatos por conflito fundiário e episódios de suicídio entre povos originários do país.

Fonte: CenárioMT

Astrogildo Aécio Nunes

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