Festa de São Cristóvão volta a reunir caminhoneiros e famílias em Cuiabá

Após 12 anos sem ser realizada, 35ª edição da tradicional festa acontece neste domingo (9), integrada à programação do Mato Grosso Agro Festival, no Parque Novo Mato Grosso
Há encontros que vão muito além de uma festa. São reencontros com a memória, com a fé e com histórias que atravessam gerações. Neste domingo (09), o ronco dos motores e o som das buzinas deram vida novamente a uma tradição que estava adormecida: a Festa de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e viajantes, voltou a ser celebrada em Cuiabá após 12 anos sem realização.
Em sua 35ª edição, a Festa de São Cristóvão foi realizada dentro da programação do Mato Grosso Agro Festival, realizado entre os dias 7 e 9 de agosto, no Parque Novo Mato Grosso. A retomada além de caminhoneiros, famílias e devotos, reuniu pela primeira vez, cavaleiros, amazonas, motociclistas, em um grande momento de fé e confraternização.
Às 6h, caminhoneiros se concentraram no posto Aldo Locatelli, conhecido entre os profissionais como Posto Mangueiras, enquanto, no mesmo horário, cavaleiros e amazonas se reuniam no Aeroporto Bom Futuro. Pouco depois, as caravanas ganharam as ruas rumo ao Parque Novo Mato Grosso.
O encontro das diferentes comitivas aconteceu no portal do parque. O momento foi marcado pela bênção dos veículos e dos participantes, seguida pela Missa Campal de São Cristóvão, celebrada por Dom Vital Chatolina.
Para quem vive diariamente nas estradas, a celebração teve um significado ainda mais profundo. O presidente do Sindicato dos Motoristas Profissionais de Mato Grosso (Sindmat), Eleus Amorim, destacou que cerca de 400 veículos participaram da procissão.

“Para nós é um orgulho resgatar esse evento que estava parado há tantos anos. A emoção, a fé e o sentimento de participar de uma carreata dessa são muito grandes. Todo mundo acompanha, bate palma, e quem está dentro da carreata sente uma emoção muito forte”, afirmou.
Entre os caminhoneiros, a celebração também despertou lembranças familiares e histórias de vida. Seo Benedito Farias, de 62 anos, que trabalha há quatro décadas nas estradas, resumiu o sentimento ao receber a bênção ao lado do filho. “Sentir São Cristóvão abençoando o meu caminhão hoje, do lado do meu filho, me deu um nó na garganta. Carrego esse Mato Grosso no peito e na boleia há 40 anos.
Hoje eu vi que a nossa riqueza é mesmo o que a gente guarda do lado esquerdo do peito”, contou.
Para o Tiago Mendes, de 38 anos, conhecido como
“Gauchinho”, a festa também representa uma pausa na rotina de quem passa boa parte do ano longe de casa. “A gente passa o ano inteiro comendo poeira e saudade pela BR. Chegar num domingo de Dia dos Pais, ver aquele buzinaço pela cidade e depois comer um costelão, no meio da turma, faz qualquer cansaço sumir”, disse.
A devoção também apareceu nas palavras de Antônio Carlos, o “Tonho”, de 54 anos, que há anos participa da tradição. “São Cristóvão é quem senta no banco do carona quando a noite cai na estrada. A bênção é de arrepiar a pele. Hoje o ronco do motor não é de trabalho, é de agradecimento”, afirmou.
O secretário de Cultura de Cuiabá, Johnny Everson, idealizador da retomada da Festa de São Cristóvão e do Mato Grosso AgroFestival, destacou que a celebração representa uma ligação profunda entre a fé, a cultura e a história de Mato Grosso.
“Estamos valorizando a cultura cuiabana, a cultura mato-grossense e a nossa fé, porque todo esse acontecimento é em homenagem a São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e viajantes. Essa multidão de cavaleiros, amazonas, comitivas e caminhões prova que a gente estava precisando disso. Precisamos desacelerar, respirar com calma e agradecer a Deus. Esse resgate retorna com ainda mais força para que nunca mais pare”, afirmou.

Para Johnny, a retomada também tem um significado pessoal. Ele participou da primeira edição da festa, em 1991, ainda jovem, ao lado do pai. “Na primeira edição da Festa de São Cristóvão, em 1991, eu estava com meu pai e cantei na missa. Um mês depois, meu pai faleceu. Então, quando vejo tudo isso acontecendo novamente, vêm muitas lembranças. Participei de várias edições como artista, como produtor e ajudando a organizar. A festa cresceu movida pela força da fé”, relembrou.
A tradicional celebração havia sido realizada pela última vez em 2013 e ficou suspensa por 12 anos. O retorno foi articulado a partir da união de representantes da cultura, do setor de transporte, da Igreja e do agronegócio.
O frei Eliseu Menegat, um dos responsáveis pela articulação religiosa da retomada, destacou que a volta da festa é resultado de um esforço coletivo e, principalmente, da fé dos caminhoneiros.
“Não é uma decisão apenas minha. Todos aqueles envolvidos no transporte e também o agronegócio sempre valorizaram a Festa de São Cristóvão. Fomos pedindo para que ela voltasse e aproveitamos este evento do AgroFestival para trazer a festa para cá”, explicou.
Mesmo em um novo espaço, distante do local onde tradicionalmente era realizada, o frei avaliou que o Parque Novo Mato Grosso oferece estrutura para que a celebração cresça nos próximos anos.
“É um espaço ideal, com estacionamento e estrutura para tudo. Tenho certeza de que a próxima edição deverá ser muito melhor, porque o pessoal vai se acostumando com o local. Acima de tudo, é a fé que cada motorista e cada caminhoneiro carrega no coração”, afirmou.
E foi justamente a fé que deu o tom à mensagem deixada pelo frei aos profissionais que passam a maior parte da vida na estrada. “Motorista, dirija com cuidado, tenha paciência e jamais tenha pressa na estrada. Seja camarada. Quando alguém dirigir de forma ofensiva, você dirija de forma defensiva. Precisamos ser humanos. A vida é uma só. Cuide da estrada, mas cuide também da sua vida, porque o motorista da sua vida é você. Tenha fé, esperança e caridade. Jesus é o caminho, a verdade e a vida”, declarou.
A organizadora da Cavalgada de São Cristóvão e presidente da Comitiva Amigos do Rodeio, Carla Riquelme, contou que 18 comitivas foram cadastradas, e cerca de 200 cavaleiros e amazonas participaram, representando comitivas de diversas regiões do estado.
Uma festa que cabe na memória de toda a família
A celebração, no entanto, não ficou restrita aos caminhoneiros. Famílias inteiras participaram da programação e encontraram na Festa de São Cristóvão uma oportunidade para celebrar juntas o domingo de Dia dos Pais.
Luciana e Fernando Arantes, moradores do bairro Quilombo, levaram os dois filhos e o pai, de 78 anos, para acompanhar a procissão.
“Nós não somos do meio rural, mas moramos em Cuiabá e fazemos questão de valorizar nossas raízes. Viemos com nossos filhos e meu pai. Participar da procissão, receber a bênção para a nossa família e depois sentar para almoçar foi muito especial”, contaram.
Assessoria de imprensa da PBR






