Mato Grosso tem dobro da média nacional de efetivo em delegacias da mulher, mas peca em plantão 24h

Mato Grosso tem dobro da média nacional de efetivo em delegacias da mulher, mas peca em plantão 24h
Violência de gênero

Mato Grosso ostenta um dos maiores contingentes proporcionais do país para o combate à violência de gênero, mas ainda esbarra na falta de portas abertas quando a mulher mais precisa.

Dados do 10º Diagnóstico Nacional das Unidades de Polícia Civil Especializadas no Atendimento às Mulheres (ano-base 2025) revelam um contraste no estado: Mato Grosso possui mais do que o dobro da média nacional de efetivo por habitante feminina, mas passou anos operando sem atendimento ininterrupto.

Segundo o levantamento, o estado conta com 11,99 profissionais nas unidades especializadas para cada grupo de 100 mil mulheres — índice significativamente superior à média brasileira, que é de 5,67.

Apesar da abundância de recursos humanos, o acolhimento noturno e nos finais de semana era praticamente inexistente. Apenas em maio deste ano, com a inauguração da unidade de Várzea Grande, Mato Grosso ganhou a sua primeira e única Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) com funcionamento.

Gargalo nacional e descumprimento da lei federal

A falta de plantões noturnos em Mato Grosso reflete um problema que afeta todo o país. O diagnóstico aponta que 80% das delegacias da mulher no Brasil não funcionam 24 horas, descumprindo a Lei Federal nº 14.541/2023, que exige atendimento contínuo todos os dias da semana.

Na prática, durante as madrugadas e finais de semana — períodos de maior incidência de agressões domésticas —, as vítimas mato-grossenses precisavam recorrer às Centrais de Flagrantes comuns, dividindo espaço e atendimento com ocorrências de furto, roubo e outros crimes gerais.

Acúmulo de funções e alta nos crimes psicológicos

Outro ponto crítico levantado pelo estudo é que 87,5% das unidades especializadas em Mato Grosso funcionam como delegacias mistas. Isso significa que a maior parte do efetivo não é exclusiva para violência contra a mulher, dividindo a rotina com ocorrências envolvendo crianças, adolescentes e idosos.

Em nível nacional, as 585 unidades especializadas realizaram mais de 782 mil atendimentos em 2025, acolhendo cerca de 329 mil vítimas diretas.

  • Crimes mais frequentes no país: Ameaça (148.544 registros), lesão corporal (99.473) e injúria (88.739).
  • Alertas de maior crescimento: Perseguição (stalking), com salto de 44,3% (52.855 casos), e violência psicológica, que subiu 49,7% (23.911 casos) em relação à pesquisa anterior.

O diagnóstico deixa claro que, embora Mato Grosso tenha investido em pessoal, o desafio atual está em descentralizar os plantões e garantir exclusividade no atendimento para que a proteção chegue no momento do socorro.

Fonte: CenárioMT

Astrogildo Aécio Nunes

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