Mais de 800 mil eleitores de Mato Grosso podem ficar sem votar este ano

Mais de 800 mil eleitores de Mato Grosso podem ficar sem votar este ano
Reprodução/Agência Brasil

Enquanto candidatos disputam voto a voto e travam uma corrida para atrair lideranças políticas, uma parcela significativa dos 2.638.230 eleitores de Mato Grosso sequer deve comparecer às urnas nas eleições de 4 de outubro. Entre os que vão às seções eleitorais por obrigação legal, já que o voto é obrigatório no Brasil, muitos ainda optam por anular o voto ou votar em branco.

Levantamento feito pelo HiperNotícias com base nos dados abertos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) revela números impressionantes sobre a abstenção (os eleitores que não comparecem para votar), os votos nulos e os votos brancos desde as eleições gerais de 2010.

Em média, mais de um terço dos eleitores deixaram de votar para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual nas quatro últimas eleições. (Confira na tabela abaixo).

Arte/HNT

tabela abstenções

Para governador, o IPE (Índice de Perdas Eleitorais) foi de 26,62% em 2010, ou o equivalente a mais de 555 mil eleitores. Esse contingente pulou para 28,95 (731 mil eleitores) em 2014.

Já o pico das perdas eleitorais foi o ano de 2018, que teve uma abstenção recorde de 24,55%, e também um aumento histórico de nulos e brancos, que atingiram marca dos 13,99%. No total, o IPE de 2018 foi de 88,54%, que equivaleram a mais de 897 mil eleitores.

Essa perda histórica foi atribuída a fatores como polarização ideológica acirrada entre os candidatos a presidente e a consequente violência política provocada por esse fenômeno, e excesso de candidaturas a cada um dos seis cargos em disputa. Levando-se em conta que a cada oito anos há a renovação de dois terços do senado, com dois votos para senador em cada estado.

Conforme o levantamento, houve variações importantes nas perdas eleitorais entre as disputas para governador em relação às de presidente, sendo que as maiores perdas sempre foram as das disputas estaduais.

PROJEÇÃO PARA 2026

REPRODUÇÃO

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Com um eleitorado apto de 2.638.230 eleitores em Mato Grosso para 2026, e considerando a evolução histórica do IPE de 2010 a 2022, a projeção para 2026 aponta para uma perda estimada de 34% de votos para governador e 27,5% para presidente.

Isso significa que cerca de 897 mil eleitores podem deixar de votar para governador, número que deve ficar em 725 mil para presidente.

É um universo suficiente para eleger pelo menos um senador, dez deputados estaduais e quatro deputados federais.

CRISE E OPORTUNIDADE

HiperNotícias ouviu especialistas em marketing eleitoral para saber se eles acreditam ser possível fazer esse enorme contingente de eleitores voltarem ao jogo eleitoral. E, se sim, como.

Arte/HNT

materia abstençoes

Para o publicitário e estrategista eleitoral, Fabrício Meirelles, é possível trazer de volta esse contingente de eleitores que hoje se abstém ou anula o voto. Na avaliação dele, o principal desafio é recuperar a confiança da população na política.

“Acredito que sim, é possível buscar esses eleitores de volta. Muitas pessoas não deixaram de votar porque perderam a fé na democracia, mas porque perderam a confiança na política. As pessoas querem candidatos que falem a verdade, entendam os problemas reais do cotidiano e que mostrem resultados. Quando o eleitor percebe que o seu voto pode realmente fazer a diferença, ele volta a participar. Ninguém se motiva por obrigação. As pessoas votam quando acreditam que existe alguém capaz de representar seus sonhos e ajudar a melhorar sua realidade”, destacou.

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materia abstençoes

A estrategista de marketing digital Roberta Heringer também acredita ser possível reconquistar esses eleitores, mas defende que o primeiro passo é compreender as razões que levaram esse público a se afastar da política.

“Antes de pensar em como trazer esse eleitor de volta, a gente precisa entender por que ele foi embora. Se olharmos para essa evolução desde 2010, na minha visão existem dois fatores importantes: o aumento do descrédito em relação à classe política e, mais recentemente, o desgaste provocado pela polarização. Chega um momento em que muita gente simplesmente se cansa desse ambiente e deixa de enxergar na política um caminho para resolver os problemas do dia a dia”, disse.

Na avaliação da estrategista, uma campanha eficiente precisa partir da escuta das demandas da população e compreender como os problemas coletivos afetam individualmente cada eleitor.

“Se eu quisesse motivar esse eleitor a votar, começaria pela escuta. Eu sempre digo que as causas são coletivas, mas a decisão do voto passa pela forma como elas atravessam a vida de cada pessoa. Muitas dessas dores nem aparecem nas redes sociais. São preocupações silenciosas, como a dificuldade para pagar as contas, a espera por atendimento no SUS ou a insegurança em relação ao futuro dos filhos”, defendeu.

Segundo Roberta, reconhecer essas preocupações deve orientar toda a estratégia de comunicação das campanhas.

“A comunicação política precisa aprender a reconhecer essas dores, mesmo quando elas não são verbalizadas. Essa escuta deve orientar toda a estratégia da campanha. Quando o eleitor percebe que existe alguém que compreende sua realidade e está disposto a representá-la com autenticidade, cria-se uma identificação. E quando existe identificação, o interesse pela política volta a surgir e o voto passa a fazer sentido novamente”, explicou.

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joao edison

Diferentemente de Fabrício Meirelles e Roberta Heringer, que defendem o resgate da confiança na política por meio da credibilidade e da escuta do eleitor, o professor de Ciência Política e consultor João Edison avalia que a solução passa por uma mudança na lógica da disputa eleitoral, com foco na regionalização do voto para deputado estadual.

“Somente a regionalização do voto para deputado estadual terá poder de levar até as urnas estes eleitores descrentes. Mas, na prática, os candidatos ideológicos terminam por ser um atentado ao bom senso e isso acaba por afastar esta possibilidade. Para estes ideológicos a ausência de votos é vantagem, porque as bolhas elegem apenas eles”, avaliou.

Na avaliação do cientista político, uma estratégia baseada no chamado voto distrital e no fortalecimento das candidaturas proporcionais teria maior potencial para mobilizar o eleitorado que hoje se mantém distante das urnas.

“Para fazer isso apelaria para o utilitarismo e regionalismo, ou seja, buscar um voto ‘distrital’ e aí forçar os votos casados. Em resumo, penso que é investir no candidato a deputado estadual, já que ele é o maior puxador de votos indecisos ou descrentes”, resumiu.

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materia abstençoes

Para o jornalista, pesquisador e estrategista eleitoral Kleber Lima, uma coisa é certa: os números da abstenção, dos votos brancos e dos nulos representam uma oportunidade que, até agora, tem sido pouco explorada pelas campanhas.

“Eu vejo esse universo de eleitores abstêmios como uma grande oportunidade! Em vez de brigar pelos mesmos eleitores, os candidatos poderiam olhar para esse verdadeiro oceano de pessoas, que está esperando alguém ir pescá-los com a isca certa”, comentou.

Na avaliação do estrategista, o primeiro passo é compreender quem são esses eleitores e quais fatores os mantêm distantes das urnas, antes de tentar convencê-los a participar da disputa. Segundo ele, uma vez identificado esse perfil, a disputa por esse eleitorado pode se tornar mais eficiente e decisiva para o resultado das eleições.

“Depois de entendê-lo, aí fica mais fácil motivá-lo. Se algum candidato olhasse bem para esse público, talvez tivesse mais sucesso na pescaria de votos, que no fim das contas, não têm dono”.

Astrogildo Aécio Nunes

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