De onde vêm os maiores diamantes do mundo? Cientistas já sabem a resposta

Os maiores diamantes já encontrados na Terra podem ter uma origem muito mais complexa do que os cientistas imaginavam. Um novo estudo identificou pistas sobre as rochas que abrigam essas gemas gigantes nas profundezas do planeta e reconstruiu a impressionante jornada que elas percorrem até chegar à superfície – e, finalmente, serem extraídas por humanos.
Liderada por pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo (África), a pesquisa se concentra nos chamados diamantes CLIPPIR (Cullinan-like, Large, Inclusion-Poor, Pure, Irregular, Resorbed, na sigla em inglês). Como explica o pesquisador Geoffrey Howarth, professor da Universidade do Cabo, em texto ao site The Conversation. Eles representam menos de 1% de todos os diamantes conhecidos, mas incluem alguns dos maiores exemplares da história, como o Cullinan, de 3.106 quilates, encontrado na África do Sul; o Lesedi La Rona, de 1.111 quilates, descoberto em Botsuana em 2015 e vendido por US$ 53 milhões (cerca de R$ 270 milhões, na cotação atual) dois anos depois; e o Motswedi, de 2.492 quilates, recuperado na mina de Karowe, também em Botsuana, em 2024.
Apesar do valor comercial dessas pedras, o que mais interessa aos pesquisadores é o que elas podem revelar sobre o interior da Terra. Isso porque os diamantes CLIPPIR pertencem a uma categoria conhecida como diamantes profundos, formados a mais de 400 km de profundidade, na chamada zona de transição de manto. Já os diamantes comuns costumam surgir a até 200 km abaixo da superfície, nas raízes do manto sob antigos continentes.
Como não é possível observar diretamente essas regiões profundas do planeta, os diamantes funcionam como verdadeiros mensageiros geológicos, preservando informações sobre ambientes inacessíveis e sobre a reciclagem de materiais no interior da Terra ao longo de centenas de milhões de anos.
Para entender de onde vieram esses diamantes gigantes, pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, voltaram a atenção para os kimberlitos, rochas magmáticas raras que ascendem rapidamente do manto e atuam como elevadores naturais, transportando diamantes até a superfície.
Em vez de analisar apenas as gemas — mineral já lapidado e polido para uso —, a equipe estudou a composição química da olivina, o mineral mais abundante do manto e frequentemente incorporado pelos magmas kimberlíticos durante sua subida.
Segundo os cientistas, a composição da olivina funciona como uma espécie de impressão digital das rochas atravessadas pelo magma. A quantidade de ferro presente no mineral, assim como sua assinatura isotópica de oxigênio, permite reconstruir as características das regiões profundas onde os diamantes permaneceram armazenados antes de serem transportados para a superfície.
As análises revelaram que os kimberlitos capazes de transportar diamantes CLIPPIR estão associados a áreas do manto ricos em ferro. Segundo os autores, essa é uma forte evidência de que esses ambientes são os verdadeiros reservatórios naturais dos maiores diamantes do planeta.
Além de responder a uma antiga questão da geologia, a descoberta pode ter aplicação prática. Kimberlitos que apresentam grande quantidade de olivina rica em ferro e minerais associados passam a ser candidatos mais promissores para futuras buscas por diamantes gigantes.
Uma viagem iniciada no fundo do oceano
Estudos anteriores já indicavam que os dimantes CLIPPIR tinham relação com antigas porções da crosta oceânica. O novo estudo reforça essa hipótese e ajuda a explicar como esse processo acontece. Tudo começa quando duas placas tectônicas colidem. Em alguns casos, uma delas mergulha sob a outra em um processo conhecido como subducção, carregando consigo pedaços da crosta oceânica para centenas de quilômetros de profundidade.
Os pesquisadores identificaram evidências de que os diamantes gigantes estão ligados especificamente a uma crosta oceânica basáltica muito antiga, que havia sido alterada pela circulação de fluidos quentes no fundo do mar antes de afundar no manto. Sob temperaturas e pressões extremas, o carbono presente nesse material acabou se transformando em diamantes. Com o tempo, essa antiga crosta formou rochas muito densas e ricas em ferro, justamente o tipo de material identificado na pesquisa.
Essa descoberta resolveu um mistério, mas levantou outro. Por serem extremamente densas, essas rochas dificilmente conseguiriam retornar sozinhas à superfície da Terra. A hipótese proposta pelos pesquisadores é que elas tenham sido carregadas por plumas mantélicas — colunas de rocha superaquecida que sobem das profundezas do planeta e seriam capazes de arrastar esse material para cima.
Ao atingir a base da litosfera, a camada rígida situada sob os continentes antigos, esse material teria permanecido armazenado por centenas de milhões de anos. Muito tempo depois, magmas kimberlíticos atravessaram essas regiões, capturando os diamantes e transportando-os rapidamente rapidamente até a superfície durante raras erupções vulcânicas.
Assim, segundo os autores, os diamantes CLIPPIR registraram uma verdadeira viagem geológica: começam no fundo de um oceano ancestral, afundam até o manto profundo, retornam lentamente às raízes dos continentes e, finalmente, chegam à superfície milhões de anos depois.
Em busca de novos diamantes
Para os pesquisadores, os resultados também podem orientar futuras expedições em busca desses diamantes gigantes. Na África, países como Serra Leoa e Angola já produziram enormes diamantes CLIPPIR encontrados em cascalhos de rios. Como eles podem ser carregados por longas distâncias pela água, muitas vezes é difícil identificar qual kimberlito lhes deu origem.
Um exemplo é o Diamante Estrela de Serra Leoa, de 969 quilates, descoberto em 1972 em sedimentos fluviais no distrito de Kono. Durante décadas, sua rocha de origem permaneceu desconhecida. Mais recentemente, no entanto, diamantes CLIPPIR foram encontrados no kimberlito Meya, na mesma região, confirmando que ainda existem fontes primárias desses exemplares de diamantes.
Segundo os pesquisadores, a assinatura química rica em ferro identificada no estudo poderá ajudar geólogos a selecionar quais kimberlitos merecem investigações mais detalhadas. Embora isso não garanta a descoberta de novos diamantes gigantes, aumenta as chances de localizar as raras rochas capazes de esconder algumas das gemas mais valiosas do planeta.
Por Sarah Macedo






