Este rato vive em altitudes maiores do que qualquer outro mamífero da Terra

Este rato vive em altitudes maiores do que qualquer outro mamífero da Terra
O rato-de-orelhas-folha-andino possui múltiplas adaptações que lhe permitem sobreviver em um ambiente extremamente frio e inóspito — Foto: Marcial Quiroga-Carmona

Sobreviver onde o oxigênio é escasso, as temperaturas permanecem abaixo de zero e praticamente não há alimento disponível parece uma tarefa impossível para um mamífero. Ainda assim, um pequeno roedor dos Andes vem desafiando essa lógica. O rato-de-orelhas-folha-andino (Phyllotis vaccarum) foi encontrado vivendo a quase 7 mil metros de altitude, no topo do vulcão Llullaillaco, na fronteira entre Argentina e Chile, mais alto do que qualquer outro mamífero já registrado. Agora, um estudo publicado na revista Science revela como esse animal consegue prosperar em um ambiente considerado extremo até mesmo para espécies adaptadas às montanhas.

Até poucos anos atrás, acreditava-se que o recorde de sobrevivência em grandes altitudes pertencia à pika-de-orelhas-grandes (Ochotona macrotis), um pequeno mamífero aparentado aos coelhos que vive nas montanhas do Himalaia – e que inspiraram o Pokémon “Pikachu”. A descoberta dos ratos vivendo centenas de metros acima desse limite mudou completamente a visão dos pesquisadores.

“Foi completamente inesperado. As pessoas não achavam que mamíferos pudessem sobreviver nessas altitudes, mas eles estão lá”, afirma Graham Scott, professor do Departamento de Biologia da Universidade McMaster e coautor do estudo, em comunicado.

Muito além do oxigênio

Para entender como esses animais resistem a essas condições – comparadas por alguns pesquisadores às encontradas em Marte -, a equipe analisou o genoma completo de 167 ratos-de-orelhas-folha-andino que viviam ao longo da faixa de ocorrência da espécie, desde áreas baixas até regiões de altitude extrema. Os cientistas também realizaram experimentos em laboratório simulando ambientes frios e com baixo teor de oxigênio.

Os resultados mostraram que os ratos das regiões mais elevadas produzem muito mais calor corporal do que os indivíduos das terras baixas. Segundo os pesquisadores, isso acontece porque seus músculos possuem uma quantidade muito alta de mitocôndrias, as estruturas responsáveis pela produção de energia nas células.

“Eles são mais parecidos com um maratonista do que com um velocista. Suas células musculares são repletas de mitocôndrias que lhes permitem sustentar atividades que produzem calor por períodos mais longos”, explica Scott.

Os ratos-de-orelhas-folha-andinos ( Phyllotis vaccarum ) podem viver a uma altitude de 6.739 m — Foto: MARCIAL QUIROGA-CARMONA
Os ratos-de-orelhas-folha-andinos ( Phyllotis vaccarum ) podem viver a uma altitude de 6.739 m — Foto: MARCIAL QUIROGA-CARMONA

Curiosamente, diferentemente de outros mamíferos adaptados às grandes altitudes, esses roedores não dependem principalmente de alterações no transporte de oxigênio pelo sangue. Em vez disso, desenvolveram mudanças fisiológicas e genéticas capazes de tornar a produção de energia muito mais eficiente mesmo com pouco oxigênio disponível.

Adaptação na alimentação

Embora o frio e a falta de oxigênio fossem os principais focos da pesquisa, a maior surpresa veio da dieta dos animais. Nas regiões onde vivem, praticamente não existe vegetação abundante. Ainda assim, eles conseguem sobreviver consumindo líquens e, possivelmente, sementes e insetos carregados pelos ventos.

As análises genéticas revelaram que os ratos desenvolveram adaptações que lhes permitem metabolizar e neutralizar compostos tóxicos presentes em plantas, ampliando significativamente as opções de alimento disponíveis em um ambiente extremamente pobre em recursos.

“Inicialmente, estávamos focados nos desafios ambientais mais óbvios, como baixo nível de oxigênio e frio, mas havia fatores importantes que não prevíamos, incluindo como esses animais lidam com o que comem”, diz Scott.

“A evolução é um processo complexo. Quando os animais se deparam com ambientes realmente desafiadores, há muitas coisas diferentes com as quais eles precisam lidar, não apenas as óbvias”, complementa Grant McClelland, professor da Universidade McMaster e coautor do trabalho. “Às vezes, nossas suposições sobre os ambientes mais extremos em que os animais podem viver podem ser questionadas. A evolução tem muito espaço para experimentar”.

Os pesquisadores acreditam que compreender essas adaptações pode ajudar a entender como diferentes espécies responderão às rápidas mudanças climáticas em curso. Embora o aumento das temperaturas costume receber a maior parte da atenção, os cientistas destacam que os animais enfrentam simultaneamente alterações na disponibilidade de alimento, oxigênio, água e outros fatores ambientais.

“Tendemos a focar nas temperaturas como o grande desafio. Mas os animais lidam com muitas pressões ao mesmo tempo e a evolução pode levá-los a reagir de maneiras que nem sempre antecipamos”, conclui Scott.

Por Carina Gonçalves

Astrogildo Aécio Nunes

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