Peixes têm pescoço? Estes cientistas acham que sim; entenda por quê

Peixes têm pescoço? Estes cientistas acham que sim; entenda por quê
A truta arco-íris foi uma das espécie que os cientistas analisaram por meio de vídeos de raio X — Foto: Ariel Camp

A ideia de que peixes e anfíbios não têm pescoço pode estar com os dias contados. Bom, pelo menos é o que argumenta uma pesquisa apresentada durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental que aconteceu em Florença, na Itália. Ela propõe uma nova definição para essa região do corpo para incluir grupos de vertebrados a definições que tradicionalmente ficaram de fora por causa de diferenças anatômicas.

Nos mamíferos, o pescoço costuma ser definido como a região da coluna vertebral localizada entre o crânio e os ombros, permitindo que a cabeça se mova em três dimensões de forma independente do restante do corpo. Essa definição, porém, não se aplica facilmente a animais como peixes e anfíbios, que possuem anatomia bastante diferente.

Segundo a pesquisadora Roxana Taszus, da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, descobertas recentes mostram que alguns peixes apresentam uma região funcional da coluna vertebral que pode ser comparada a um pescoço da forma como conhecemos.

“Essas descobertas sugerem que a suposição tradicional de ausência de pescoço não é universalmente válida, e pode ignorar regiões anatômicas funcionalmente distintas”, afirma a cientista, em comunicado. Ela explica que o interesse da equipe por peixes e salamandras surgiu justamente desse desafio conceitual e das implicações evolutivas da questão.

O projeto de pesquisa, ainda em desenvolvimento, reúne cientistas da Universidade de Liverpool e do Museu de História Natural de Stuttgart, na Alemanha. O objetivo é criar uma definição mais abrangente para o pescoço, considerando tanto sua morfologia quanto sua função, de modo que possa ser aplicada aos principais grupos de vertebrados.

Pesquisas iniciais

Para investigar como diferentes espécies movimentam a cabeça e a coluna vertebral, os pesquisadores registraram vídeos de raios X de animais durante a alimentação e criaram modelos 3D com auxílio de softwares de animação. A partir dessas reconstruções, identificaram quais segmentos da coluna participavam do movimento da cabeça e do pescoço e onde essas regiões começavam e terminavam.

A equipe também iniciou uma nova etapa do estudo com salamandras. Os pesquisadores coletaram vídeos para analisar como esses anfíbios movimentam a coluna ao se alimentar tanto em ambiente terrestre quanto aquático. Embora seja aceito que salamandras possuam algum tipo de pescoço, ainda não existe consenso sobre quais vértebras formam essa região nem sobre seu papel durante a alimentação.

Durante as etapas iniciais de pesquisa do projeto, os cientistas encontraram definições inconsistentes para o pescoço em diferentes grupos de vertebrados. Segundo Taszus, isso levou a uma investigação sobre as interpretações históricas e atuais do conceito, com o objetivo de desenvolver uma definição mais inclusiva.

Entendendo a evolução dos vertebrados

Os cientistas destacam que estabelecer uma definição clara do pescoço pode facilitar comparações entre diferentes grupos de animais e ajudar a compreender melhor sua evolução.

No caso das salamandras, a pesquisa pode trazer pistas sobre os primeiros tetrápodes — os primeiros vertebrados a adotar, ao menos parcialmente, a vida em terra firme. De acordo com Taszus, esses anfíbios representam o modelo vivo mais próximo para investigar a morfologia funcional desses ancestrais.

“Examinar como as salamandras se alimentam e coordenam os movimentos da cabeça e da coluna vertebral fornece informações valiosas sobre a evolução dessas funções durante a transição de ambientes aquáticos para terrestres”, disse a pesquisadora.

Nos peixes, a equipe afirma estar próxima de diferenciar claramente dois conceitos: o de “pescoço morfológico”, formado por vértebras próximas à cabeça com formato distinto, e o de “pescoço funcional”, composto por vértebras responsáveis por permitir que a cabeça se mova independentemente do corpo.

Segundo Taszus, estudos realizados desde a década de 1940 já sugeriam que as vértebras localizadas logo atrás da cabeça dos peixes poderiam formar uma região anatômica específica. No entanto, apenas recentemente, com o uso de vídeos de raios X, foi possível demonstrar a existência desse pescoço funcional.

Os pesquisadores ressaltam ainda que há uma enorme diversidade entre as espécies de peixes. Enquanto os mamíferos apresentam, de forma geral, sete vértebras cervicais, os peixes podem variar desde espécies sem vértebras logo atrás da cabeça até outras com vértebras fundidas ao crânio ou com estruturas altamente especializadas.

Por Sarah Macedo

Astrogildo Aécio Nunes

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