Análise | Crises expõem bolsonarismo entre disputa interna, improviso e desgaste de imagem: “Ele sai pulando na hora”

Em meio à crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro, a pré-campanha do senador à Presidência passou a lidar com uma sequência de ruídos públicos dentro do próprio campo bolsonarista. Enquanto Flávio tenta – sem grande êxito para a maioria – reduzir o desgaste provocado pela articulação em torno do pedido de adiamento da taxação dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, integrantes da direita ampliaram a percepção de instabilidade política no grupo.
O episódio mais simbólico partiu do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ao comentar a situação de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar humanitária, o dirigente afirmou que o ex-presidente “sara na hora” caso seja colocado em liberdade. “Sai pulando de alegria”, disse.
A declaração abriu margem para desgaste junto à própria defesa de Bolsonaro, ao sugerir que o quadro de saúde do ex-presidente poderia ter menor gravidade do que o apresentado publicamente.
Valdemar também gerou reação ao dizer que não substituiria Michelle no comando do PL Mulher para evitar novos atritos. Ao completar a frase com “sabe como é mulher”, o dirigente recorreu a um estereótipo de gênero e abriu margem para críticas de machismo, justamente em um momento em que o partido tenta conter danos junto ao eleitorado feminino.
A crise interna também alcançou o deputado Zé Trovão (PL-SC), que chamou de “covarde” a postura de Bolsonaro após a derrota de 2022. A fala rompeu uma regra informal do bolsonarismo: evitar críticas diretas ao ex-presidente. Os filhos reagiram, mas o episódio expôs que a lealdade pessoal ainda pesa mais do que a discussão estratégica dentro do grupo.
Na mesma sequência, o general da reserva Paulo Chagas, ex-candidato ao governo do Distrito Federal, também alfinetou a família Bolsonaro. “Nunca mais teremos um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Disso eu tenho certeza. Agora precisamos não ter nunca mais um petista também, começando em 2026”, escreveu no X.
Até Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do partido nas redes sociais, teve de se explicar. O deputado negou ter participado do vídeo em que Michelle Bolsonaro relatou o tratamento recebido dos filhos do marido, especialmente de Flávio. “Não tive qualquer participação nisso. E digo mais: se conseguirem provar que eu participei, coordenei ou me envolvi na produção desse vídeo, eu renuncio ao meu mandato”, afirmou.
No movimento mais recente, Flávio decidiu ampliar a presença de sua mulher, Fernanda Bolsonaro, na pré-campanha. A estratégia busca reconstruir pontes com o eleitorado feminino após o afastamento de Michelle, que era uma das principais vozes do bolsonarismo entre mulheres conservadoras.
A aposta pode ajudar a reduzir danos, mas também carrega risco político: se parecer apenas uma substituição emergencial de Michelle, pode reforçar a impressão de improviso e de dependência da imagem familiar para sustentar a candidatura.
Edilson Almeida | Redação RDM Brasilia






