Sonda japonesa chega a 10 km de asteroide “boneco de neve” e faz imagem detalhada

Sonda japonesa chega a 10 km de asteroide “boneco de neve” e faz imagem detalhada
O asteroide Torifune visto pela câmera de navegação óptica da sonda Hayabusa2 em 5 de julho de 2026 — Foto: JAXA

 

sonda japonesa Hayabusa2 concluiu com sucesso um sobrevoo do asteroide Torifune e enviou à Terra imagens inéditas em alta resolução que revelam o formato peculiar do objeto, semelhante a um “boneco de neve”. A aproximação ocorreu no último domingo (5), a apenas cerca de 10 km da superfície do asteroide, tornando-se uma das passagens em alta velocidade mais próximas já realizadas por uma espaçonave. Além das fotografias obtidas por câmeras ópticas e infravermelhas, a missão coletou dados científicos que ainda serão transmitidos para análise.

Segundo a JAXA (Agência de Exploração Aeroespacial do Japão), a Hayabusa2 permanece operando normalmente e o sobrevoo representa o primeiro grande objetivo da missão estendida da sonda, encerrada sua etapa original após o retorno de amostras do asteroide Ryugu à Terra, em 2020. “Temos o prazer de anunciar que obtivemos com sucesso imagens e dados científicos do asteroide Torifune”, destaca a organização em comunicado divulgado nessa segunda-feira (6).

Formato incomum chama a atenção

As novas imagens mostram que Torifune possui dois lóbulos ligados por uma região estreita, configuração conhecida entre astrônomos como “objeto bilobado”. Na prática, trata-se de um corpo formado por duas grandes massas unidas, lembrando a silhueta de um boneco de neve.

O asteroide Torifune, visto pela câmera de infravermelho médio ​​da sonda Hayabusa2 em 5 de julho de 2026 — Foto: JAXA
O asteroide Torifune, visto pela câmera de infravermelho médio ​​da sonda Hayabusa2 em 5 de julho de 2026 — Foto: JAXA

Esse tipo de estrutura desperta interesse porque pode revelar como pequenos corpos do Sistema Solar se formaram e evoluíram ao longo de bilhões de anos. Uma das hipóteses é que objetos desse tipo tenham surgido após colisões lentas entre dois asteroides menores, que permaneceram unidos em vez de se fragmentarem completamente.

Torifune tem cerca de 450 metros de diâmetro e atualmente está a aproximadamente 100 milhões de quilômetros da Terra. O asteroide completa uma volta ao redor do Sol a cada 383 dias e gira em torno do próprio eixo em cerca de cinco horas. O asteroide pertence ao chamado grupo Apollo, cuja órbita cruza com a da Terra. Apesar dessa característica, não há indicação de risco de impacto com o planeta, lembra o portal Space.com.

Câmeras revelam mais do que uma fotografia

Durante a aproximação, a Hayabusa2 utilizou diferentes instrumentos científicos para observar Torifune. Entre eles estava a ONC-T (câmera óptica de navegação), responsável pelas imagens em luz visível, e a TIR (câmera de infravermelho médio).

Asteroide Ryugu, também visto pela espaçonave Hayabusa2 da JAXA — Foto: JAXA, Universidade de Tóquio, Universidade de Kochi, Universidade de Rikkyo, Universidade de Nagoya, Instituto de Tecnologia de Chiba, Universidade Meiji, Universidade de Aizu e AIST
Asteroide Ryugu, também visto pela espaçonave Hayabusa2 da JAXA — Foto: JAXA, Universidade de Tóquio, Universidade de Kochi, Universidade de Rikkyo, Universidade de Nagoya, Instituto de Tecnologia de Chiba, Universidade Meiji, Universidade de Aizu e AIST

Ao contrário de uma fotografia convencional, uma câmera infravermelha registra o calor emitido pelos objetos. Isso permite medir características como a temperatura da superfície, sua rugosidade e a chamada inércia térmica — propriedade que indica o quão rapidamente um material aquece durante o dia e esfria à noite. Essas informações ajudam os pesquisadores a estimar a composição do asteroide e o tamanho dos grãos de rocha espalhados sobre sua superfície.

As imagens em infravermelho mostram diferenças marcantes de temperatura. Assim, as regiões voltadas para o Sol aparecem mais quentes, enquanto áreas em sombra permanecem significativamente mais frias.

Sobrevoo exigiu precisão extrema

A operação marcou o primeiro encontro da Hayabusa2 com um asteroide desde o encerramento de sua missão principal. Antes da máxima aproximação, iniciada ainda em meados de junho, a sonda utilizou sucessivas observações ópticas para ajustar sua trajetória.

Comparação de tamanho entre o asteroide Ryugu, visitado pela Hayabusa2 em 2020, e seu próximo alvo, o 1998 KY26 — Foto: ESO/M. Kornmesser. Modelos de asteróides: T. Santana-Ros, JAXA/Universidade de Aizu/Universidade de Kobe
Comparação de tamanho entre o asteroide Ryugu, visitado pela Hayabusa2 em 2020, e seu próximo alvo, o 1998 KY26 — Foto: ESO/M. Kornmesser. Modelos de asteróides: T. Santana-Ros, JAXA/Universidade de Aizu/Universidade de Kobe

Na etapa final, outros instrumentos, como um espectrômetro de infravermelho e um sistema a laser para medição de distâncias, também entraram em operação. Eles permaneceram ativos até instantes antes da passagem mais próxima.

Segundo a JAXA, apenas parte dos dados científicos foi transmitida até agora. O restante será enviado em futuras sessões de comunicação entre a espaçonave e a Terra.

Missão continua produzindo descobertas

Lançada em dezembro de 2014, a Hayabusa2 tornou-se uma das missões mais bem-sucedidas da exploração planetária. Seu principal objetivo foi visitar o asteroide Ryugu, coletar amostras de sua superfície e trazê-las para a Terra — feito concluído com sucesso em dezembro de 2020.

Desde então, pesquisadores vêm analisando esse material em busca de pistas sobre a origem do Sistema Solar e da própria vida. Entre os resultados mais importantes está a identificação, nas amostras de Ryugu, das cinco nucleobases presentes no DNA e no RNA, moléculas fundamentais para os organismos vivos. A descoberta reforça a hipótese de que compostos orgânicos essenciais podem ter sido distribuídos pelo espaço por meio de asteroides.

A missão da Hayabusa2, porém, ainda está longe do fim. O próximo destino da sonda será o pequeno asteroide 1998 KY26, com apenas cerca de 11 metros de diâmetro — menor que muitos edifícios terrestres. A previsão é que a nave chegue ao alvo em 2031, quando deverá entrar em órbita e tentar um novo pouso científico. A expectativa da JAXA é que essa etapa amplie o conhecimento sobre a estrutura e a composição dos menores asteroides conhecidos.

Por Arthur Almeida

Astrogildo Aécio Nunes

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