Marcas que não se apagam

Emirella Martins
Em 26 anos atuando como policial militar, naturalmente existem ocorrências que me marcaram, em especial envolvendo crianças e mulheres.
Alguns bons anos atrás, fomos chamados para atender uma ocorrência de roubo à residência no bairro Santa Rosa. Outra guarnição chegou primeiro e já havia liberado as vítimas, um homem e duas mulheres. Eram três criminosos armados com arma de fogo. Além do roubo e da violência física contra o homem, que permaneceu amarrado durante toda a ação criminosa, outro bandido cometia violência sexual com uma das mulheres. Uma cena impossível de descrever.
Logo após tomar as primeiras providências e encaminhamentos para localização dos autores, acompanhei a vítima de violência sexual ao Instituto Médico Legal para realização da perícia e, na sequência, ao Hospital Universitário Júlio Muller, a fim de ser submetida ao protocolo de profilaxia.
Esta vítima estava extremamente assustada e pedia, a todo momento, para que eu não me afastasse dela. Ela estava com medo de todos os homens que se aproximavam, além de acreditar que os criminosos poderiam voltar e machucá-la novamente, demonstrando estar claramente traumatizada pela violência vivida.
Situações como essa sempre me levam a refletir sobre a profunda devastação que a violência sexual provoca na vida das mulheres. Essa vivência traumática altera profundamente suas emoções, memórias e funções cognitivas. É comum que passem a sofrer com pensamentos intrusivos, como se revivessem a agressão continuamente, presas em um ciclo de sofrimento. Sentimentos de vergonha e a falsa noção de responsabilidade fazem com que a vítima internalize a culpa e sinta repulsa pelo próprio corpo. Mesmo na condição de vítima, muitas temem o julgamento social, a revitimização e internalizam a ideia de que perderam seu valor ou crédito apenas porque o agressor as escolheu. Infelizmente, as consequências desse trauma podem se estender por toda a vida adulta.
Estes tipos de ocorrências também me ajudaram a compreender melhor a importância da presença feminina em todos os espaços públicos, em todos os níveis, principalmente nas forças de segurança. Mas, por óbvio, não basta ser mulher para garantir um atendimento digno. É necessário entender como o feminino é posicionado na sociedade e como isso reflete em sua vida e dores.
Por consequência, não basta apenas criar um serviço especializado às mulheres. As instituições também precisam especializar os profissionais envolvidos. Neste momento, a presença de uma mulher em posição de decisão, e esclarecida quanto ao tema, fará toda a diferença.
Atualmente, a ‘pauta’ mulher tem demandado muitos discursos. Nosso desafio é reconhecer quem realmente está preocupado com a pauta feminina e quem está pegando carona.
Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.
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