A autonomia se constrói na participação da criança

A autonomia se constrói na participação da criança
Imagem Pessoal

Andrea Fernandes da Rocha

 

Existe uma cena muito comum na infância atual.

O adulto está com pressa.

Então escolhe a roupa da criança porque “vai ser mais rápido”.

Coloca o sapato porque “ela ainda demora”.

Responde por ela.

Organiza tudo.

Resolve tudo.

Corrige tudo.

Sem perceber, muitos adultos passam o dia inteiro fazendo pela criança aquilo que ela já poderia começar a experimentar junto.

E depois se perguntam por que ela não consegue decidir, insistir, esperar, tolerar frustrações ou sustentar pequenas responsabilidades.

Talvez porque autonomia não apareça pronta.

Ela se constrói.

E ela começa muito antes da criança conseguir fazer algo sozinha.

Começa quando a criança participa.

Existe uma ideia muito equivocada sobre autonomia infantil.

Muitas pessoas associam autonomia à independência precoce:

Comer sozinho, dormir sozinho, se organizar sozinho, resolver tudo sozinho.

Mas autonomia não é abandono.

Também não é desempenho.

Autonomia é um processo de construção interna.

E esse processo depende das experiências que a criança vive no cotidiano.

Ao longo dos atendimentos e da convivência com famílias, existe algo que aparece repetidamente:

Crianças muito estimuladas, mas pouco participantes da própria vida.

A rotina está cheia.

As agendas organizadas

Os adultos atentos.

Mas, muitas vezes, a criança apenas acompanha decisões tomadas por outros.

Ela executa.

Obedece.

Responde.

Mas participa pouco.

A participação é o primeiro grande pilar da autonomia.

A criança precisa estar dentro do processo.

Precisa tentar.

Precisar perceber que suas ações produzem efeitos no mundo.

Precisa experimentar pequenas escolhas e pequenas responsabilidades compatíveis com sua idade.

Isso começa em situações aparentemente simples.

Quando escolhe entre duas roupas.

Quando ajuda a guardar um brinquedo.

Quando tenta colocar o próprio sapato mesmo errando.

Quando participa da organização da mochila.

Quando ajuda a colocar o copo na mesa.

Quando pode opinar.

Quando pode tentar antes que um adulto faça por ela.

Pode parecer pouco.

Mas é justamente nesse cotidiano que a criança começa a construir senso de competência, iniciativa e pertencimento.

Uma criança que apenas recebe comandos aprende a obedecer.

Uma criança que participa começa a aprender sobre si.

Mas existe outro ponto importante:

Ninguém desenvolve autonomia de uma vez.

O segundo pilar da autonomia é a progressão.

A criança não nasce sabendo esperar, escolher, decidir ou lidar com frustrações.

Essas capacidades se desenvolvem progressivamente, de acordo com as experiências, oportunidades e apoio recebidos ao longo do tempo.

Hoje, muitos adultos esperam resultados rápidos.

Querem independência emocional e autorregulação em crianças que ainda estão começando a construir essas habilidades.

Só que desenvolvimento não acontece na velocidade da ansiedade adulta.

Uma criança pequena não aprende responsabilidade porque ouviu uma explicação bonita.

Ela aprende vivendo experiências repetidas, sustentadas e coerentes.

E isso exige algo que muitas vezes falta:

Tempo para os pequenos avanços.

Às vezes, o avanço é a criança conseguir esperar um pouco mais.

Tentar de novo sem desistir imediatamente.

Aceitar ajuda sem entrar em desorganização.

Participar de algo que antes evitava.

Autonomia saudável não nasce da perfeição.

Nasce da repetição de experiências possíveis.

E é aqui que entra o terceiro pilar:

Suporte.

Existe um erro muito comum quando se fala em autonomia infantil:

Achar que estimular autonomia significa deixar a criança sozinha.

Não significa.

A criança precisa de suporte.

Mas suporte não é fazer tudo por ela.

O suporte saudável é aquele que ajuda na medida certa.

É o adulto que sustenta emocionalmente sem invadir o processo.

Que ajuda sem substituir.

Que acolhe a frustração sem retirar imediatamente o desafio.

Que percebe quando deve apoiar mais e quando já pode esperar um pouco antes de interferir.

Porque autonomia não se desenvolve sem segurança.

A criança só consegue explorar, errar, tentar e crescer quando existe uma base de apoio sustentando esse movimento.

E talvez seja justamente aqui que esteja a parte mais importante:
O verdadeiro resultado da autonomia não é formar crianças que fazem tudo sozinhas.

A autonomia e a construção da identidade.

O resultado da autonomia aparece na construção da identidade.

Aparece quando a criança começa a perceber preferências, sustentar escolhas, reconhecer limites,
posicionar-se, desenvolver iniciativa e assumir pequenas responsabilidades sobre si.

Uma criança que participa da própria vida começa, aos poucos, a construir também a própria voz.

E talvez seja por isso que desenvolvimento infantil não aconteça apenas nas grandes intervenções.

Muitas vezes, ele acontece em pequenos e decisivos passos do cotidiano que quase ninguém percebe — mas que ajudam a construir, ao longo do tempo, a forma como uma criança aprende a existir no mundo.

Andrea Fernandes da Rocha é terapeuta ocupacional, atua com desenvolvimento infantil e parentalidade e é autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância.
Instagram: @andrea.desenvolvimentoinfantil

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Astrogildo Aécio Nunes

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