Dentistas neandertais usavam ferramentas de pedra para tratar cáries há 60 mil anos

Dentistas neandertais usavam ferramentas de pedra para tratar cáries há 60 mil anos
Vistas de ângulos diferentes de molar de 59 mil anos encontrado em caverna arqueológica da Sibéria — Foto: Zubova et al., 2026 / PLOS One

Apesar de a odontologia ter se consolidado como uma profissão formal apenas no século 19, um novo estudo indica que práticas de cuidado dental já existiam há milhares de anos. Uma nova evidência aponta inclusive que os neandertais, espécie de hominídeos extinta há 40 mil anos, mantinham práticas odontológicas.

O estudo, conduzido por pesquisadores do Museu de Antropologia e Etnografia Pedro, o Grande (ou Kunstkamera), em São Petersburgo, e publicado em 13 de maio na revista PLOS One, sugere que esses antigos humanos eram capazes de identificar infecções dentárias e remover tecidos de dentes danificados.

Segundo os autores, embora ainda não esteja totalmente claro qual era o nível de conhecimento médico desses indivíduos, as descobertas indicam que eles utilizavam ferramentas semelhantes a palitos de dente não apenas para retirar restos de comida, mas também para aliviar dores causadas por doenças periodontais — inflamações e infecções da gengiva e dos tecidos de suporte dos dentes, como ossos e ligamentos.

Para os pesquisadores, é possível que os neandertais cuidassem de neandertais doentes, feridos ou idosos com o auxílio de plantas medicinais. Eles chegaram a essas conclusões após encontrarem, na Caverna Chagyrskaya, na Sibéria (Rússia), um dente de neandertal que apresentava sinais de desgaste associados ao tratamento de uma infecção. O achado em questão é um molar datado de cerca de 59 mil anos atrás.

Dentistas préhistóricos

No centro do dente, os pesquisadores identificaram um orifício profundo que alcançava a câmara pulpar — camada interna onde ficam os nervos, vasos sanguíneos e tecido conjuntivo. Para entender como esse “buraco” poderia ter sido feito, a equipe realizou experimentos em três dentes humanos modernos.

Os testes utilizaram uma ferramenta pontiaguda de jaspe (um tipo de quartzo) semelhante às encontradas no sítio arqueológico, e mostraram que ela era capaz de produzir marcas parecidas com as observadas no molar.

De acordo com os arqueólogos, tanto o orifício quanto os sulcos deixados por instrumentos de pedra na lateral do molar indicam tentativas de aliviar a dor causada por uma lesão de cárie. Eles destacam que evidências como essa são raras entre os grupos de neandertais.

Esse tipo de procedimento provavelmente era doloroso, mas poderia aliviar o desconforto causado pela infecção ao remover a parte danificada do dente. As marcas encontradas no dente indicam que os neandertais eram capazes de identificar a origem da dor, decidir como tratá-la e realizar intervenções delicadas com ferramentas de pedra.

Segundo comunicado, esta é a primeira evidência desse tipo de comportamento fora do Homo sapiens e a mais antiga já registrada, antecedendo casos parecidos em mais de 40 mil anos.

Os autores afirmam ainda que a remoção da polpa dentária teria sido intencional e que o desgaste observado no molar ocorreu ainda em vida, indicando que o indivíduo continuou utilizando o dente após o procedimento. A presença de áreas deterioradas e com vestígios de cárie também sugere que a cavidade no molar estava ligada ao tratamento da infecção.

Tomografia computadorizada do molar de neandertal; a seta indica um sulco feito por instrumentos de pedra — Foto: PLOS One
Tomografia computadorizada do molar de neandertal; a seta indica um sulco feito por instrumentos de pedra — Foto: PLOS One
Três cavidades na parte superior e mastigatória do dente molar — Foto: PLOS One
Três cavidades na parte superior e mastigatória do dente molar — Foto: PLOS One

Para Alisa Zubova, do Museu de Antropologia e Etnografia Pedro, o Grande e principal autora do estudo, o procedimento revela que os neandertais possuíam capacidades cognitivas e habilidades motoras sofisticadas.

“A pessoa que realizou as manipulações fez isso em várias etapas, usando uma ferramenta preparada propositalmente — embora provavelmente multifuncional — e buscando atingir um objetivo específico guiado por percepções sensoriais que permitiam localizar a origem da dor”, afirmou a pesquisadora em entrevista à PLOS One.

Segundo ela, isso indica que os neandertais tinham capacidades cognitivas comparáveis às dos Homo sapiens do Paleolítico Superior. Ela destaca que as manipulações exigiam grande destreza manual, indicando habilidades motoras finas bem desenvolvidas.

Como aponta a arqueóloga Ksenia Kolobova, do Instituto de Arqueologia e Etnografia e autora sênior do estudo, o achado vai além de uma simples evidência de cuidado. Segundo ela, tratar um dente cariado exigia identificar a origem da dor, escolher uma ferramenta adequada e realizar um procedimento invasivo apesar do desconforto do paciente.

“Isso sugere que os neandertais entendiam relação de causa e efeito: ‘Se eu remover o tecido deteriorado, a dor pode parar.’ É um salto cognitivo que vai além do instinto”, destacou a arqueóloga

Zubova também afirma que já existem diversas evidências de que os neandertais cuidavam de indivíduos doentes ou feridos de seus grupos. Em sítios arqueológicos como Shanidar (Iraque), La Chapelle-aux-Saints (França) e Krapina (Croácia), pesquisadores encontraram sinais de ferimentos cicatrizados e doenças graves em indivíduos que sobreviveram por longos períodos.

Segundo a pesquisadora, descobertas como a da Caverna Chagyrskaya reforçam a ideia de que os neandertais não eram tão “primitivos” quanto se imaginava e podiam cuidar de membros vulneráveis de seus grupos de forma semelhante aos humanos modernos.

(Por Sarah Macedo)

Astrogildo Aécio Nunes

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