Agenda cheia não significa desenvolvimento

Agenda cheia não significa desenvolvimento
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Há crianças que acordam cedo, vão para a escola, passam por terapias, atividades extras, compromissos e ainda chegam em casa com tarefas escolares para fazer.

Para muitos adultos, isso parece sinal de cuidado. Afinal, a criança está sendo estimulada, acompanhada, preparada.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade:

essa criança está se desenvolvendo ou apenas sendo conduzida de um compromisso para outro?
Vivemos uma época em que a infância parece precisar estar sempre ocupada. Quanto mais atividades, melhor. Quanto mais estímulo, mais aprendizado. Quanto mais agenda, mais preparo para o futuro.
Só que desenvolvimento não funciona como acúmulo de compromissos.

Isso não significa que rotina, escola, terapias ou atividades extras não sejam importantes. Muitas vezes, são necessárias e fazem diferença. O problema começa quando a vida da criança fica tão preenchida que não sobra espaço para ela brincar, escolher, descansar, errar, experimentar e participar do próprio cotidiano.
Uma agenda cheia pode ensinar a criança a cumprir horários, obedecer comandos e dar conta de tarefas. Mas isso não é o mesmo que aprender a viver.

Desenvolver-se envolve muito mais do que fazer coisas. Envolve escolher, tentar, errar, perceber o que sente, descobrir do que gosta, lidar com pequenas frustrações e participar da própria vida.

E isso não acontece quando tudo já chega pronto, decidido e organizado pelo adulto.

Uma criança pode passar o dia inteiro ocupada e, ainda assim, participar muito pouco de verdade. Ela faz, responde, acompanha, executa. Mas nem sempre decide, experimenta ou se implica no que está vivendo.
O problema é que isso costuma aparecer depois.

Aparece quando ninguém diz exatamente o que fazer. Quando ela precisa escolher. Quando algo sai errado. Quando precisa sustentar uma tentativa sem desistir no primeiro desconforto.

Nessas horas, muitas crianças travam, evitam ou desistem rápido. Não porque sejam incapazes, mas porque tiveram pouca oportunidade de construir autonomia no cotidiano.

Existe uma diferença importante que precisamos encarar:

fazer não é o mesmo que escolher.

E uma criança que só aprende a fazer pode crescer com dificuldade para tomar algumas decisões.
Isso não significa defender uma infância sem rotina. Crianças precisam de rotina. A rotina organiza, dá segurança e ajuda a vida familiar a funcionar.

Mas uma coisa é rotina. Outra coisa é uma vida completamente preenchida, onde não sobra espaço para a criança experimentar.

Criança precisa de tempo.

Tempo para brincar sem uma regra pronta. Tempo para tentar do próprio jeito. Tempo para errar sem alguém corrigir imediatamente. Tempo para ficar entediada — e, a partir do tédio, inventar alguma coisa.
É nesse espaço aparentemente simples que a autonomia começa a se formar.

Quando tudo já está decidido — a roupa, a atividade, o jeito certo de fazer, o próximo compromisso — a criança não precisa pensar. Ela só precisa acompanhar.

E acompanhar não ensina ninguém a sustentar a própria vida.

Talvez a pergunta não seja: “meu filho está fazendo bastante coisa?”

Talvez a pergunta mais importante seja:

meu filho está tendo chance de participar da própria vida?

Participar da própria vida é poder fazer pequenas escolhas, colaborar nas tarefas possíveis, dizer o que sente, tentar de novo, brincar livremente, descansar e ser reconhecido como alguém em desenvolvimento — não apenas como alguém que precisa cumprir uma agenda.

Porque, no fim, desenvolvimento não é sobre fazer mais.

É sobre não se perder de si enquanto faz.

E isso exige mais do que agenda organizada. Exige presença, escuta e coragem de desacelerar quando for necessário.

Andrea Fernandes da Rocha é terapeuta ocupacional, atua com desenvolvimento infantil e parentalidade, e é autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância.
Instagram: @andrea.desenvolvimentoinfantil

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Astrogildo Aécio Nunes

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