Antes do comportamento: o que a escola precisa enxergar sobre autorregulação infantil

Andrea Fernandes
Na rotina escolar, o comportamento costuma ser o que mais chama atenção.
A criança que não para quieta.
A que não escuta.
A que se desorganiza, interrompe, se recusa ou explode.
E, diante disso, é comum que a resposta venha na forma de correção, orientação ou tentativa de controle.
Mas existe um ponto que ainda é pouco considerado — e que muda completamente a forma de olhar para essas situações:
Nem todo comportamento difícil é um problema de comportamento.
Muitas vezes, é um problema de autorregulação.
Uma criança que não consegue se manter na atividade, que reage com intensidade ou que parece “não colaborar” pode não estar desafiando o adulto.
Pode estar, na verdade, sem recursos internos para sustentar o que está sendo exigido dela.
Autorregulação não é algo que a criança simplesmente “tem” ou “não tem”.
É um processo em construção.
E esse processo envolve corpo, atenção, emoção e ambiente funcionando de forma integrada.
Quando isso não acontece, o comportamento aparece como sinal — não como causa.
O problema é que, na prática escolar, ainda há uma expectativa frequente de que a criança se adapte rapidamente à rotina, às regras e às demandas cognitivas, mesmo quando ela ainda não tem base suficiente para isso.
E é nesse ponto que surgem muitos dos conflitos.
A escola, muitas vezes sem perceber, acaba cobrando desempenho antes de construir sustentação.
Cobra atenção antes de garantir condições para que a criança consiga se organizar.
Cobra autonomia antes de oferecer espaço para participação real.
Cobra comportamento antes de compreender o que está por trás dele.
Isso não significa ausência de limites.
Limites são fundamentais.
Eles organizam, dão previsibilidade e ajudam a criança a se situar.
Mas limites, sozinhos, não constroem autorregulação.
Para que uma criança consiga se regular, ela precisa de algo que vem antes:
vínculo, segurança, clareza de rotina e um ambiente que não a sobrecarregue constantemente.
Uma sala muito estimulante, uma rotina pouco previsível ou uma exigência acima do que a criança consegue sustentar naquele momento podem intensificar a desorganização — mesmo em crianças que, em outros contextos, conseguem se engajar melhor.
Além disso, existe uma confusão importante que também precisa ser revista: a ideia de que uma criança autônoma é aquela que faz sozinha.
Na prática, o que muitas vezes vemos são crianças que executam tarefas, seguem instruções e mantêm comportamentos esperados — mas sem implicação real no que fazem.
Isso pode parecer autonomia, mas muitas vezes é apenas repetição bem treinada.
Autonomia envolve participação, escolha e compreensão.
E isso só se constrói quando a criança está minimamente regulada.
Sem autorregulação, não há base para autonomia.
Por isso, talvez o ponto mais importante não seja como fazer a criança “se comportar melhor”, mas como criar condições para que ela consiga se sustentar no que faz.
Isso muda o foco da intervenção.
Sai do controle direto do comportamento
e passa para a construção de base.
Mais do que corrigir, é preciso observar.
Mais do que exigir, é necessário ajustar o contexto.
Mais do que esperar adaptação imediata, é fundamental construir sustentação.
Quando a escola começa a olhar para o que vem antes do comportamento, algo muda.
A criança deixa de ser vista apenas pelo que faz
e passa a ser compreendida pelo que consegue — ou ainda não consegue — sustentar.
E é nesse ponto que o trabalho ganha profundidade.
Porque desenvolvimento não se constrói na pressa.
Se constrói na base.
Se você é educador e esse tema atravessa sua rotina,
Talvez essa seja uma conversa que precisa acontecer na sua escola, com mais profundidade.
Andrea Fernandes – Terapeuta Ocupacional Infantil
CREFITO2: 019067-TO
Autora do livro:
Pequenos e Decisivos Passos na Infância
Instagram: @andrea.desenvolvimentoinfantil
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