Rótulos ‘a ferro e fogo’

Emirella Martins
Conforme glossários digitais ‘a ferro e fogo’ é um provérbio usado para indicar que algo deve ser feito com extrema rigidez, determinação absoluta, intensidade, força e sem flexibilização.
Em minhas percepções sobre o processo social que estamos vivenciando, vejo como a sociedade criou uma forte necessidade de enquadrar pessoas e ações em rótulos, especialmente quando falamos sobre mulheres.
Estas caixas vêm com a rigidez do ‘ferro e fogo’, diretamente influenciada pela atual polarização política, expressa por dois extremos opostos e distintos, com grande resistências ao diálogo. E isso já repercute em todos os tipos de relações humanas, inclusive apresentando consequências danosas.
O equilíbrio se tornou algo ofensivo, errado e sinônimo de incerteza, sendo alvo de ataques dos dois polos. E o mais surpreendente, geralmente sem conhecimento da causa, agindo apenas como reprodução automatizada do influencer de estimação. “Não vou assistir esta séria porque ela é de viés esquerdista”, mas alguém assistiu e disse para os demais não assistirem, e é claro que irão seguir a orientação, sem permitirem a própria reflexão.
Na verdade, existe uma resistência muito grande com todas as mudanças que estão acontecendo e muitos não sabem como agir. De certa forma, criar rótulos rígidos é mais uma tentativa de impor obstáculo neste processo.
Nem toda feminista quer acabar com a família, isso não a define, nem toda valorização do homem é ‘redpill’, mas todos precisam ter cuidado e responsabilidade com o que está propondo difundir. Para isso é fundamental buscar conhecimento sobre o assunto, estudar mesmo, passar pelo processo de compreensão e conscientização das normas sociais, estereótipos e desigualdades impostas entre homens e mulheres, enquanto sociedade. Permitir escutar o outro. Não basta ser homem ou mulher, não basta ter passado por uma violência, precisa entender como isso é estruturado dentro de uma sociedade. Neste sentido, vejo muitos e muitas se apossando do discursos sem conhecimento.
O entendimento das relações entre homens e mulheres não tem por propósito rotular impondo um lado, muito menos renunciar escolhas que fazem sentido para si. É reconhecer a existência de padrões impostos e como tudo isso interfere em nossa sociedade.
Percebo que os rótulos a ferro e fogo propõe uma inexistência de flexibilização, nele está determinado o que deve ser, pensar, defender e principalmente o que não defender. Dentro destes rótulos, ser feminista traz uma carga negativa preconcebida por terceiros, consagradas como verdadeiras e assim disseminadas. A partir disso, qualquer tentativa de diálogo torna um embate de oposições. Mas a que preço devemos ser um ou outro? O que nos define? Os conceitos pré-existentes ou as compreensões individuais? Fica o convite à reflexão.
Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.
*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Aef News






