A ‘normalidade’ do feminicídio

A ‘normalidade’ do feminicídio
Divulgação

Emirella Martins

Em Manaus, um homem diz para sua ex-mulher que se terminarem ele irá matá-la, “vou te matar, tô falando sério, pode gravar, manda lá para delegacia da mulher” ainda diz “vou te decapitar, vou jogar bola com tua cabeça”.

Por que será que um homem fica tão à vontade ameaçando matar sua ex-companheira?
Existe uma estrutura em nossa sociedade que muitos ignoram, fazem de conta não enxergar ou não existir, simplesmente para não mudar o status quo, em uma tentativa de manter o estado atual das coisas, ou seja, o poder, domínio e controle masculino sobre a mulher. Esta tríade, além de gerar desigualdades, também anula a autonomia feminina, submetendo-a às decisões masculinas. Isto foi plantado lá longe, enquanto a sociedade era construída, definindo a mulher como inferior ao homem, e hoje estas raízes estão profundas, regadas sistematicamente por todas as gerações anteriores.

Algumas leis foram criadas na expectativa de mudança deste cenário, mas a verdade é que estamos muito longe da mulher ser reconhecida como igual plenamente.

Este caso de ameaça de feminicídio retrata bem esta estrutura de poder, domínio e controle, que ‘normaliza’ a violência contra a mulher. Mesmo comportamento que também silencia muitas pessoas, principalmente os homens.

Esta naturalização leva o agressor a agir como se nada fosse mais importante do que retomar a posse e controle de sua esposa, e isto é verdade para ele, pois entende que está ‘no seu direito’, já que ela desafiou seu domínio tentando romper com a submissão vivida.

Este caso, divulgado nesta quarta-feira (08.04.26) pela Polícia Civil do Amazonas, como em muitos feminicídios, no momento do crime o agressor não está preocupado com as consequências legais, mesmo consciente de todas elas. Nesta situação, com mais propriedade ainda porque o agressor é policial civil. Além disso, é possível perceber um aumento no nível da agressividade, entendida como reflexo da resistência a liberdade e autonomia das mulheres.

Acreditem, tem muitas pessoas contra a defesa das mulheres, agindo sorrateiramente para manutenção do status quo, e são pessoas com poder de decisão, que acreditam que as leis de proteção vieram para prejudicar os homens, que não reconhecem as violências sofridas pelas mulheres, sem conhecimento rotulam e polarizam as pessoas que trabalham em defesa, que negam a influência dos discursos de ódio nos casos de violência e que red pill é apenas para valorização do homem. Que bom seria se fosse apenas um culto à masculinidade sadia.

O autor da ameaça, Divoney Perasa de Souza, de 60 anos, é procurado pela Polícia Civil do Amazonas. Denúncias podem ser feitas ao 190, inclusive anônimas.

Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.

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Astrogildo Aécio Nunes

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