Polvos escolhem seus parceiros pelo toque e não pela visão, revela estudo

Polvos escolhem seus parceiros pelo toque e não pela visão, revela estudo
Os pesquisadores decifraram como um apêndice masculino funciona como um órgão multifuncional para buscar, sentir e semear — Foto: Publicdomainpictures/ Linnaea Mallette
Cientistas revelaram que polvos escolhem seus parceiros pelo toque ou, mais precisamente, por um sistema sensorial que mistura tato e paladar, literalmente “provando” o outro com seus braços. Essa descoberta foi publicada na Science, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Harvard.

A descoberta mostra que esses cefalópodes não dependem da visão para acasalar. Em vez disso, utilizam um braço especializado, o hectocótilo, que atua não só como ferramenta reprodutiva, mas também como um sofisticado órgão sensorial.

“O braço especializado para o acasalamento já havia sido documentado há muito tempo, mas não se sabia que ele também era um órgão sensorial”, explica Nicholas Bellono, professor de Biologia Molecular e Celular e autor sênior do estudo, em comunicado. “Este é o mecanismo pelo qual os polvos reconhecem seus parceiros e facilitam a fertilização.”

Sexo no escuro e à distância

Para testar a hipótese, os pesquisadores realizaram um experimento. Colocaram machos e fêmeas em lados opostos de uma barreira, com pequenas aberturas que permitiam apenas a passagem dos braços.

O resultado foi surpreendente. Mesmo sem contato visual e até na escuridão total, os machos conseguiam localizar as fêmeas, introduzir o hectocótilo em seu manto e transferir o espermatóforo.

“Eles acasalaram através da divisória”, relata Pablo Villar, pós-doutorando e autor principal do estudo. “Para nós, essa foi a demonstração mais simples e clara de que eles conseguem se reconhecer apenas por meio da quimiorrecepção e acasalar sem contato físico completo.”

Um braço que “sente” hormônios

A chave desse comportamento está em sensores químicos presentes no hectocótilo. Esses receptores detectam substâncias específicas liberadas pelas fêmeas, especialmente moléculas precursoras da progesterona, um hormônio sexual.

Em um dos experimentos mais impressionantes, os cientistas expuseram um hectocótilo separado do corpo à progesterona. O braço reagiu imediatamente, movendo-se de forma ativa, como se ainda estivesse conectado ao animal.

Os cientistas colocaram polvos machos e fêmeas em lados opostos de uma barreira preta em um tanque de água salgada para o experimento — Foto: ROV SuBastian / Instituto Oceânico Schmidt
Os cientistas colocaram polvos machos e fêmeas em lados opostos de uma barreira preta em um tanque de água salgada para o experimento — Foto: ROV SuBastian / Instituto Oceânico Schmidt

Além disso, quando os pesquisadores substituíram a fêmea por tubos revestidos com progesterona, os machos responderam como se estivessem diante de uma parceira real, ignorando completamente tubos com outras substâncias.

O estudo também reforça uma das características mais intrigantes dos polvos: sua inteligência descentralizada. Cerca de dois terços dos seus 500 milhões de neurônios estão localizados nos braços, não no cérebro central. Cada ventosa contém milhares de células sensoriais, permitindo que os braços funcionem quase como “línguas musculares” independentes, capazes de explorar e interpretar o ambiente por conta própria.

Evolução em ação

Os pesquisadores identificaram um receptor específico, chamado CRT1, responsável por detectar a progesterona. Curiosamente, esse mesmo receptor já havia sido associado à detecção de micróbios, sugerindo uma adaptação evolutiva para novas funções.

Segundo Bellono, esse tipo de mecanismo pode ter implicações profundas para a evolução das espécies. “O estudo destaca como a biologia sensorial pode manter barreiras reprodutivas entre linhagens e até mesmo contribuir para o surgimento de novas espécies”, afirma o cientista.

Essa capacidade de reconhecer parceiros da mesma espécie, mesmo em ambientes escuros e sem contato visual, pode ser um fator crucial para evitar cruzamentos entre espécies próximas, um dos motores da diversificação evolutiva descrita por Charles Darwin.

Villar inicialmente investigava receptores em polvos quando percebeu algo incomum no hectocótilo. “Isso foi surpreendente, porque os machos geralmente não usam o hectocótilo para explorar ou encontrar comida”, conta.

“Há também um ponto filosófico sobre como se faz ciência. O apoio e a ênfase em ter uma mente aberta e seguir o que a diversidade da biologia nos mostra estão sendo ativamente desencorajados. Mas este estudo mostra que essa abordagem pode produzir algo muito fundamental”, afirma Bellono.

(Por Carina Gonçalves)

Astrogildo Aécio Nunes

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