Estamos estimulando demais e sustentando de menos: o erro silencioso no cuidado com as crianças

Estamos estimulando demais e sustentando de menos: o erro silencioso no cuidado com as crianças
Imagem Pessoal

Por Andrea Fernandes

Nunca se falou tanto sobre desenvolvimento infantil.

Cursos, métodos, terapias, atividades, estímulos. Pais cada vez mais informados, escolas mais exigentes, profissionais mais especializados.

E, ainda assim, cresce o número de crianças com dificuldades básicas: não conseguem esperar, se frustram com facilidade, dependem do adulto para tarefas simples, têm pouca autonomia e apresentam explosões emocionais frequentes.

Isso não é falta de informação. É excesso — na direção errada.

O problema não é falta de estímulo — é falta de sustentação.

Hoje, existe quase uma regra implícita: se a criança tem dificuldade, precisa de mais estímulo.

Mais atividades. Mais estratégias. Mais intervenção.

Mas desenvolvimento não funciona assim.

Uma criança não se organiza porque foi mais estimulada. Ela se organiza quando existe base emocional e relacional, tempo e um adulto capaz de sustentar o processo.

Sem isso, o que vemos é uma criança que: até aprende, mas não sustenta; até entende, mas não consegue lidar com frustração; até faz uma vez, mas não mantém. Ou seja: não é falta de capacidade. É falta de sustentação.

Autonomia não é independência (e essa confusão atrapalha muito).

Aqui está um ponto central — e pouco compreendido.

Muita gente acha que autonomia é a criança fazer tudo sozinha. Mas isso é independência. Independência é o resultado. Autonomia é o processo.

Autonomia é a capacidade de a criança se envolver, compreender e participar do que está acontecendo — mesmo quando ainda precisa de ajuda.

Esse entendimento está alinhado a abordagens contemporâneas do desenvolvimento infantil e da Terapia Ocupacional, que compreendem a autonomia como um processo construído na relação, no cotidiano e na participação ativa da criança em suas experiências.

E ela não aparece de uma vez.

Ela se constrói no cotidiano, a partir de três elementos fundamentais:

Participação:

a criança se envolve no que está acontecendo, tenta, reage e se posiciona de acordo com o que consegue naquele momento.

Progressão:

ela vai assumindo pequenas partes do processo, no seu ritmo, sem precisar dar conta de tudo de uma vez.

Suporte:

o adulto sustenta, ajuda quando necessário e organiza o caminho, sem substituir a criança.
Na prática, isso aparece em situações muito simples.

Uma criança pode ainda não conseguir se vestir sozinha —mas está desenvolvendo autonomia quando escolhe a roupa, tenta colocar uma peça, erra, pede ajuda e continua participando.

Quando o adulto faz tudo por ela, ela não participa.

Quando exige que ela dê conta antes da hora, ela se frustra.

Autonomia não está em um extremo nem no outro.

Ela se constrói na relação entre o que a criança consegue fazer, o que ainda está em desenvolvimento e a forma como o adulto sustenta esse processo.

Autonomia não aparece de uma vez — ela amadurece ao longo do desenvolvimento.

Começa quando a criança passa a se envolver no que está acontecendo, compreender minimamente as situações e participar das experiências do dia a dia.

Com o tempo, essa participação se torna mais consciente: a criança começa a fazer escolhas simples, a se posicionar e a sustentar pequenas decisões.

Mais tarde, isso se aprofunda, permitindo maior capacidade de escolha, de posicionamento e de responsabilização sobre si.

Ou seja, autonomia não é um ponto de chegada.

É um processo que se constrói e se torna mais sofisticado com a idade.

Estamos evitando o que mais ajuda a criança a amadurecer
Hoje, há uma tendência forte de evitar qualquer desconforto.

A criança se frustra — o adulto resolve.

A criança demora — o adulto faz por ela.

A criança resiste — o adulto cede rapidamente.

A intenção é boa. O efeito não.

Frustração não é algo que precisa ser eliminada.

É uma experiência necessária para o desenvolvimento da autorregulação, da tolerância e da construção de autonomia.

Sem isso:

não há persistência; não há tolerância; não há autonomia real; Isso não significa deixar a criança sofrer.

Significa não impedir que ela viva experiências que fazem parte do crescimento.

O cotidiano é onde o desenvolvimento realmente acontece. Existe uma supervalorização de atividades estruturadas — e uma desvalorização do cotidiano.

Mas é no dia a dia que a criança aprende: ao se vestir; ao guardar brinquedos; ao esperar; ao participar da rotina.

O problema é que o cotidiano exige tempo — e o tempo está curto.

Então o adulto acelera. Faz pela criança. Resolve antes dela tentar.

E, sem perceber, tira dela exatamente as experiências que constroem desenvolvimento.
Talvez o problema não esteja só na criança. Essa é uma reflexão importante:

E se a dificuldade não estiver apenas na criança…
mas na forma como estamos cuidando? Talvez estejamos: estimulando demais;
sustentando de menos; ajudando demais; exigindo antes da hora
E isso gera exatamente o que estamos tentando evitar. Cuidar não é apenas ensinar, corrigir ou estimular.

Cuidar não é só ensinar. É sustentar.

Sustentar o tempo da criança; Sustentar o erro; Sustentar a tentativa; Sustentar a frustração; Sustentar o processo; Isso não está em um método pronto.

Está na forma como o adulto se posiciona no cotidiano.

Para refletir:

Antes de perguntar:

“o que essa criança precisa aprender?”

Talvez a pergunta mais importante seja:

“o que está faltando na forma como estamos sustentando esse processo?”

Porque, muitas vezes, não é a criança que precisa de mais estímulo.

É o ambiente que precisa de mais presença, mais tempo e mais intenção.
Sobre a autora

Andrea Fernandes é terapeuta ocupacional, com atuação no desenvolvimento infantil e apoio a famílias. Mãe de três filhos, dedica-se a traduzir o desenvolvimento infantil para a vida real, com foco em autonomia, regulação emocional e cotidiano.

Autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância, apresenta caminhos práticos para compreender o desenvolvimento além das teorias — e aplicá-lo no dia a dia com as crianças.
Instagram: @tocomandrea

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Aef News.

 

Astrogildo Aécio Nunes

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