Água de aquíferos glaciais de 12 mil anos nos EUA pode proteger contra Parkinson, sugere estudo

Publicado em 2 de março de 2026, um novo estudo apresentado na 78ª Reunião Anual da American Academy of Neurology revelou que a idade da água subterrânea consumida por uma população pode estar associada ao risco de desenvolver Parkinson. Pessoas que bebem água proveniente de aquíferos geologicamente mais recentes apresentam maior probabilidade de desenvolver a doença comparadas àquelas que consomem água de aquíferos mais antigos, formados há mais de 12 mil anos, durante a última era glacial.
A pesquisa analisou dados de 12.370 pessoas diagnosticadas com Parkinson e mais de 1,2 milhão de indivíduos sem a doença, que formaram o grupo de controle. Todos os participantes residiam a até 4,8 quilômetros de um dos 1.279 pontos de coleta de amostras de água subterrânea distribuídos em 21 grandes aquíferos do estado do Arizona, nos Estados Unidos.
Além da idade da água subterrânea, os cientistas avaliaram o tipo de aquífero, a fonte da água potável – como sistemas municipais ou poços particulares – e possíveis indícios de contaminação ambiental. O objetivo foi investigar se a exposição indireta a poluentes presentes na água poderia estar associada ao aumento do risco de doenças neurológicas.
Cavando mais até o fundo
De acordo com Brittany Krzyzanowski, do Atria Research Institute, a idade da água subterrânea pode indicar o seu nível de exposição a poluentes modernos. “Águas subterrâneas mais recentes, formadas a partir de precipitações ocorridas nos últimos 70 a 75 anos, foram expostas a mais contaminantes ambientais. Já as águas subterrâneas mais antigas geralmente são mais profundas e permanecem mais protegidas de poluentes da superfície”, explicou, em comunicado.
A exposição a determinados poluentes ambientais tem sido cada vez mais associada ao desenvolvimento da doença de Parkinson, um distúrbio neurodegenerativo que afeta o controle dos movimentos e pode causar tremores, rigidez muscular e dificuldades motoras.
Entre os tipos de aquíferos analisados, os que apresentaram maior associação com a doença foram os chamados aquíferos carbonáticos, formados por rochas calcárias e comuns em regiões do Centro-Oeste, Sul e da Flórida, nos EUA. Já os aquíferos glaciais, geologicamente mais antigos, apresentaram menores concentrações de poluentes e, logo, mostraram-se menos relacionados com o desenvolvimento do quadro neurológico.
Dos participantes diagnosticados com Parkinson, 3.463 obtinham água potável de aquíferos carbonáticos, 515 de aquíferos glaciais e 8.392 de outros tipos de reservatórios subterrâneos. Já entre os indivíduos saudáveis, 300.264 consumiam água de aquíferos carbonáticos, 62.917 de aquíferos glaciais e 860.993 de outras formações geológicas.
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Após ajustar os dados para fatores como idade, sexo, renda e exposição à poluição do ar, os pesquisadores observaram que pessoas cuja água potável vinha de aquíferos carbonáticos apresentavam um risco 24% maior de desenvolver Parkinson em comparação com indivíduos abastecidos por outros tipos de aquíferos.
Quando comparadas especificamente às populações que consumiam água proveniente de aquíferos glaciais, o risco de desenvolver a doença foi 62% superior.
Poluição invisível
De modo geral, as águas subterrâneas mais recentes, depositadas nos últimos 75 anos em sistemas carbonáticos, estavam associadas a um risco 11% maior de Parkinson quando comparadas às águas glaciais com mais de 12 mil anos.
Para os cientistas, a água potável pode funcionar como um indicador indireto da exposição humana à poluição moderna. “Uma maneira de examinar nossa exposição à poluição contemporânea é observar a água que bebemos”, afirmou Krzyzanowski.
De acordo com a pesquisadora, nos aquíferos glaciais, a movimentação da água tende a ser mais lenta e difusa. Isso permite que sedimentos e camadas naturais funcionem como filtros, reduzindo a concentração de contaminantes ao longo do tempo.
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que a pesquisa não comprova uma relação direta de causa e efeito entre o consumo de água subterrânea mais recente e o desenvolvimento de Parkinson. O estudo aponta apenas uma associação estatística entre os fatores.
Outra limitação envolve a estimativa da fonte de água utilizada pelos participantes. Os pesquisadores assumiram que todos os moradores que vivem em um raio de até 4,8 quilômetros de cada ponto de coleta compartilham as mesmas características de abastecimento, o que pode não refletir completamente a realidade.
Ainda assim, os resultados sugerem que fatores ambientais pouco observados – como a idade e a origem da água potável – podem desempenhar um papel importante na saúde neurológica.“Este estudo destaca que a origem da nossa água, incluindo a idade das águas subterrâneas e o tipo de fonte, pode influenciar a saúde do cérebro a longo prazo”, afirmou Krzyzanowski. “Embora sejam necessárias mais pesquisas, integrar o conhecimento sobre águas subterrâneas e saúde cerebral pode ajudar comunidades a avaliar e reduzir melhor os riscos ambientais”.
(Por Júlia Sardinha)






