Mulher teve células imortalizadas sem consentimento nos anos 1950; caso tem novo desdobramento

Mulher teve células imortalizadas sem consentimento nos anos 1950; caso tem novo desdobramento
O uso sem consentimento das células da paciente geraram uma revolução no campo da biomedicina, mas também causaram a abertura de processos por parte dos familiares de Henrietta Lacks em busca de indenizações — Foto: Oregon State University, Doc. RNDr. Josef Reischig/Wikimedia Commons

Em 4 de outubro de 1951, Henrietta Lacks morreu aos 31 anos no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, em decorrência de um câncer no colo do útero. A mulher afro-americana passou a ser descrita posteriormente como uma “doadora involuntária”, já que amostras de suas células tumorais foram coletadas sem seu conhecimento ou consentimento.

Cultivadas em laboratório, as células — batizadas de “HeLa”, em referência às iniciais de seu nome — revelaram-se capazes de sobreviver e se multiplicar indefinidamente. Tornaram-se, assim, uma das ferramentas mais importantes da pesquisa biomédica moderna, utilizadas até hoje em estudos sobre HPV, poliomielite, HIV, câncer e Covid-19.

Ao longo das décadas, no entanto, a maior parte dessas pesquisas foi conduzida sem o consentimento ou a participação da família de Lacks, o que alimentou debates éticos sobre racismo, exploração e direitos de pacientes na ciência.

Agora, a farmacêutica Novartis firmou um acordo extrajudicial com os herdeiros de Lacks em relação ao uso das chamadas células “imortais”. A família argumenta que a empresa está entre as gigantes do setor biomédico que lucraram injustamente com a utilização das células retiradas do tumor da americana, que foi enterrada em uma cova sem identificação.

História de uma doadora involuntária

Quando Henrietta procurou tratamento de um “nódulo” doloroso no Hospital John Hopkins – na época, o único que atendia pessoas negras na região –, a equipe médica já notou que se tratava de um caso diferente. Coletadas durante uma consulta, as amostras de Lacks se diferenciavam das demais por conta da alta taxa de replicação de suas células, explica matéria do site IFLScience.

Células HeLa destacas por meio de processos químicos em laboratório — Foto: TenOfAllTrades/Wikimedia Commons
Células HeLa destacas por meio de processos químicos em laboratório — Foto: TenOfAllTrades/Wikimedia Commons

A maioria das células cultivadas em laboratório morrem em poucos dias, dificultando a realização de muitos testes numa mesma colônia. Com a linhagem de células HeLa, o problema foi resolvido e o campo da biomedicina foi revolucionado, avançando-se o conhecimento de doenças e salvando inúmeras vidas.

Entretanto, a história das células e da origem étnica de Henrietta foram escondidas por décadas pela comunidade científica. A própria família da americana só teve conhecimento do uso da linhagem celular de sua parente em 1973. A partir daí, os herdeiros abriram processos contra empresas biomédicas que, segundo eles, lucraram bilhões com a linha celular HeLa.

“Não dá para saber quantas células de Henrietta ainda circulam. Um pesquisador estima que, juntas, pesariam 50 milhões de toneladas, algo inconcebível, porque cada uma pesa quase nada”, diz Rebecca Skloot, autora do livro A Vida Imortal de Henrietta Lacks, em entrevista à BBC.

Desdobramentos judiciais

Segundo a agência de notícias Associated Press (AP), foi aberto um processo em 2021 contra a empresa Thermo Fisher Scientifica respeito de indenizações a partir do “valor total de seus lucros líquidos obtidos com a comercialização da linhagem celular HeLa”.

A empresa chegou a pedir o arquivamento do caso, argumentando que o processo foi aberto depois que o prazo de prescrição expirou, porém os advogados da família alegaram que o limite não teria importância, já que a companhia continuou a se beneficiar financeiramente do uso das células “imortais”. Um acordo entre as partes foi definido há três anos.

A empresa farmacêutica suíça Novartis foi acusada pelos herdeiros de Henrietta de lucrar em cima do uso indevido das células retiradas da mulher — Foto: JoachimKohler-HB/Wikimedia Commons
A empresa farmacêutica suíça Novartis foi acusada pelos herdeiros de Henrietta de lucrar em cima do uso indevido das células retiradas da mulher — Foto: JoachimKohler-HB/Wikimedia Commons

O processo contra a Novartis foi aberto em 2024 e o acordo foi finalizado em tribunal federal em Maryland neste mês de março, mas os dados não são públicos. Um comunicado em conjunto entre a família Lacks e a empresa diz que as partes estão “satisfeitas por terem conseguido encontrar uma maneira de resolver essa questão apresentada pelo espólio de Henrietta Lacks fora dos tribunais”.

As células HeLa continuam a prosperar em laboratórios do mundo, salvando vidas e ajudando a descobrir vacinas e curas de doenças. Nesse meio tempo, familiares de Lacks continuam na busca de reparações judiciais pelo uso sem consentimento das células, com processos contra outras empresas, como a Ultragenyx e a Viatris, ainda em andamento.

(Por Fernanda Zibordi)

Astrogildo Aécio Nunes

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