Por que o curso deste rio atravessa montanha? Um novo estudo descobriu

Durante décadas, geólogos tentam entender uma questão que parece contrariar a lógica básica: o Rio Green, maior afluente do Rio Colorado, nos Estados Unidos, atravessa os Montes Uinta, uma cordilheira com cerca de 4 mil metros de altitude, em vez de contorná-las.
O rio nasce no estado de Wyoming e deságua no Colorado dentro do Parque Nacional de Canyonlands, em Utah. Mas o segredo do fenômeno é que as Montanhas Uinta se formaram há cerca de 50 milhões de anos, enquanto o atual curso do Rio Green só existe há, no máximo, 8 milhões de anos. É o que pesquisadores argumentam em um novo estudo, publicado na revista científica Journal of Geophysical Research: Earth Surface, em 2 de fevereiro.
A explicação está na conexão da superfície da Terra a processos profundos do manto. A resposta estaria em um fenômeno conhecido como “gotejamento litosférico”, responsável por rebaixar o terreno o suficiente para permitir que os rios se conectem e se unam.
Em termos geológicos, o rio é “jovem demais” para ter cortado uma cadeia montanhosa já consolidada, explica Adam Smith , autor principal do estudo e pesquisador na área de modelagem numérica na Universidade de Glasgow, no Reino Unido, ao site Live Science.
“Há cerca de 150 anos, os geólogos debatem sobre como exatamente os rios se uniram, uma questão particularmente complexa para uma área tectonicamente inativa, onde grandes eventos geológicos são mais raros”, afirma Smith em comunicado.
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Um caminho improvável
O trecho mais emblemático do mistério é o Cânion de Lodore, onde o Rio Green escavou paredes de até 700 metros de altura. Duas hipóteses clássicas tentaram explicar esse trajeto incomum. A primeira sugeria que o rio Yampa, ao sul das Uinta, teria aberto caminho pela cordilheira, permitindo depois a passagem do Green. O problema é que o Yampa não tem força suficiente para produzir cânions desse porte.
A segunda hipótese propunha que o acúmulo de sedimentos teria elevado temporariamente o nível do Rio Green, fazendo com que ele transbordasse sobre as montanhas. Mas os registros geológicos não indicam volumes de sedimentos compatíveis com essa ideia.
Montanhas que afundam
A nova pesquisa sugere que em vez de o rio “subir” a montanha, foram as montanhas que desceram. O gotejamento litosférico ocorre quando regiões densas da base da crosta terrestre, formadas sob grandes cadeias montanhosas, se tornam pesadas demais e começam a afundar no manto. Esse processo puxa a superfície para baixo, reduzindo temporariamente a altitude das montanhas. Mais tarde, quando esse “gotejamento” se desprende e afunda, ocorre um efeito rebote, elevando novamente a paisagem.
Segundo os modelos dos pesquisadores, as Montanhas Uinta teriam passado por esse rebaixamento entre 2 e 5 milhões de anos atrás. Nesse intervalo, a cordilheira se tornou o caminho de menor resistência para o Rio Green, que passou a fluir sobre ela e, desde então, continuou a erodir a rocha, aprofundando cânions como o de Lodore.
Evidências vindas do interior da Terra
Além de modelos baseados no perfil dos rios da região, o estudo analisou imagens de tomografia sísmica, mapas tridimensionais do interior do planeta feitos a partir de ondas sísmicas. Essas imagens revelaram uma anomalia a cerca de 200 quilômetros de profundidade sob as Montanhas Uinta, compatível com um antigo gotejamento litosférico já desprendido.
Embora ainda sejam necessários novos estudos para confirmar todos os detalhes do processo, a hipótese do gotejamento litosférico ajuda a resolver um mistério antigo e aponta que a paisagem que vemos hoje pode ser profundamente moldada por processos invisíveis, que acontecem dezenas ou centenas de quilômetros abaixo dos nossos pés. No caso do Rio Green, o que parecia um desafio à gravidade pode, na verdade, ser o registro silencioso de uma montanha que afundou e depois voltou a subir.
(Por Carina Gonçalves)






