Os piores anos de crédito no agro ainda virão e só sobreviverá quem mudar agora

Pablo Padilha
O crédito para o agro no Brasil vive um ponto de inflexão e, ao contrário do que muitos gostariam de acreditar, o pior ainda está por vir. Se 2025 já se desenhou como um ano de portas estreitas, 2026 e 2027 devem impor um aperto ainda maior. Não se trata de pessimismo, mas de realidade observada no comportamento dos agentes financeiros, no encarecimento das operações, na retração dos volumes e na elevação do risco percebido. O país atravessa um ciclo de escassez que se sobrepõe à queda de margens agrícolas, formando um cenário que tende a punir com severidade quem não estiver preparado.
No entanto, em crises de crédito, o produtor nunca está condenado ao fracasso, ele está obrigado a se adaptar. E é justamente aí que reside o divisor de águas entre quem vai sofrer e quem conseguirá atravessar esse período com acesso a recursos de qualidade. A diferença não será feita pelo tamanho da fazenda, pelo histórico de produção ou pela relação antiga com um banco específico. Será feita pela capacidade de evoluir, de mudar a forma como se relaciona com o sistema financeiro e de compreender que o modelo que funcionou até ontem não entregará o mesmo resultado amanhã.
O produtor que ainda depende de uma ou duas instituições para viabilizar sua operação está, conscientemente ou não, em rota de colisão com essa nova realidade. O mercado de crédito exige diversificação, competição entre agentes financeiros e, sobretudo, informações claras, organizadas e robustas. Num ambiente de risco crescente, quem comunica melhor sua situação técnica e financeira larga na frente, não por simpatia do banco, mas porque se torna mais fácil de analisar, de enquadrar e de aprovar.
A verdade é simples: os tempos de bonança ficaram para trás. Entre 2020 e 2023, talvez início de 2024, o crédito fluía com mais facilidade, as margens eram muito mais confortáveis e o apetite dos bancos era maior. Hoje, o cenário é outro. E, se até a crise do Lehman Brothers, em 2008, não trouxe um arrocho tão forte quanto o atual, é porque estamos diante de um fenômeno de natureza distinta: o produtor brasileiro cresceu, diversificou, investiu, mas não atualizou na mesma velocidade suas estratégias de crédito. Agora, a conta chega.
E como sobreviver quando o cenário piora? Com inteligência financeira aplicada e preparo técnico. Isso significa apresentar informações completas, demonstrar consistência nas decisões, antecipar necessidades futuras e estruturar operações com critérios profissionais. Significa planejar antes de precisar, e não apenas correr atrás quando o caixa aperta. Significa rever garantias, renegociar taxas, alongar prazos, liberar ativos que possam servir a novas operações, liquidar contratos desvantajosos e construir, passo a passo, um desenho de crédito que faça sentido para o fluxo de caixa da propriedade.
Assessorias especializadas, como a COFAN, existem justamente porque esse novo ambiente exige experiência acumulada, leitura precisa do mercado e capacidade técnica de apresentar ao banco aquilo que o banco precisa ver. Não se trata apenas de intermediar; trata-se de traduzir a realidade do produtor para os critérios das instituições, de forma estratégica e convincente.
A crise que se avizinha não será democrática. Ela vai punir com dureza quem insistir nas práticas antigas, quem continuar operando com improviso, quem imaginar que “sempre deu certo, então continuará dando”. Mas também vai abrir espaço para uma nova elite de produtores, aqueles que decidiram profissionalizar sua relação com o crédito, que organizaram seus números, que aumentaram sua competitividade financeira e que entenderam que informação bem apresentada é patrimônio.
Os piores anos de crédito ainda virão. Mas, para quem se preparar, eles serão apenas mais um ciclo difícil e não o fim da estrada. A diferença entre sobreviver e sucumbir está, desde já, na forma como cada produtor escolhe caminhar: pela repetição do passado ou pela construção consciente de uma nova estratégia financeira.
Pablo Padilha, advogado, financista e CEO da Cofan Carbon, empresa especializada em soluções financeiras para o agronegócio
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