Lado escuro da Lua tinha vulcões ativos há 2,8 milhões de anos

Lado escuro da Lua tinha vulcões ativos há 2,8 milhões de anos
Registro da sonda Chang'e-6 hasteando uma bandeira chinesa com um braço robótico no lado oculto da Lua — Foto: Divulgação/CNSA

Após cinco meses desde o retorno do módulo chinês Chang’e-6 à Terra, dois artigos sobre as descobertas feitas pelo instrumento no lado escuro da Lua foram finalmente publicados. A missão foi a primeira na história a obter sucesso na aterrisagem e a recolher amostras dessa região lunar.

Cerca de 1,9 kg de solo lunar da parte oculta foram trazidos para o planeta. Como é de praxe, a organização responsável pela operação tem prioridade de investigação sobre o material; neste caso, a Administração Espacial Nacional da China (CNSA).

Uma equipe formada por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências tomou a dianteira do estudo. Foi assim que se identificou que o material é um exemplar de rocha basáltica de aproximadamente 2,8 bilhões de anos. Isso sugere que o local de pouso da missão um dia foi vulcanicamente ativo.

Tal episódio de erupção relativamente recente não apareceu nas amostras coletadas do lado próximo da Lua pelo programa Apollo (EUA) ou pelas missões Luna (URSS), portanto, era completamente desconhecido até então. Essas novas informações foram detalhadas na última sexta-feira (15), nas revistas Science Nature.

Características do solo oculto

De acordo com os cientistas, as novas evidências podem ajudar a compreender melhor porque a Lua tem duas faces tão diferentes. No lado próximo, aquele que podemos sempre ver da Terra, há grande presença das regiões conhecidas como mares, antigas planícies submersas em lava de erupções vulcânicas, respondendo por 30% da superfície.

Por sua vez, no lado afastado, pesquisas anteriores baseadas em sensoriamento remoto revelaram que a topografia do espaço é bem diferente. Além de uma crosta mais espessa, estima-se que os mares ocupem apenas 2% do terreno, predominando solos mais antigos e acidentados.

Módulo de reentrada da missão Chang'e-6 na China no dia 25 de junho, onde estavam os quase 2 kg de amostras do solo lunar — Foto: Reprodução/CCTV
Módulo de reentrada da missão Chang’e-6 na China no dia 25 de junho, onde estavam os quase 2 kg de amostras do solo lunar — Foto: Reprodução/CCTV

À CNN, Clive Neal, professor da Universidade de Notre Dame, nos EUA, e coautor do artigo na Science, afirma que as novas amostras são surpreendentemente mais jovens do que as do lado próximo, as quais tinham todas mais de 3 bilhões de anos. A sua análise também demonstrou que esses novos fragmentos não carregavam a típica assinatura de elementos radioativos “Kreep”.

Os isótopos radioativos conhecidos pela sigla Kreep incluem potássio, fósforo e terras raras. Esses elementos apresentam grande capacidade de gerar calor e, por isso, geralmente estão associadas às atividades vulcânicas. No entanto, esse não parece ser o caso das amostras coletadas por Chang’e-6, onde predomina o tório, outro elemento radioativo.

Atividade vulcânica na Lua

A sonda lunar chinesa pousou em um local dentro da extensa bacia do Polo Sul-Aitken, uma cratera de impacto que se estima ter sido formada há cerca de 4 bilhões de anos. Por lá que as amostras foram coletadas.

Juntos, os dois estudos analisaram cerca de 108 fragmentos de basalto contidos em duas pequenas amostras do solo do lado oculto da Lua. Uma vez que a maioria dos fragmentos estudados tenha se formado há cerca de 2,8 bilhões de anos, isso sugere que a Lua permaneceu em estado líquido por um período mais longo do que se pensava inicialmente. Contudo, o motivo por trás disso segue desconhecido.

Como lembra a Folha de S. Paulo, a datação do terreno foi feita a partir do decaimento de isótopos de chumbo, o que implica em margem de erro de 5 milhões para mais ou para menos. Esse processo só pode ser realizado com a coleta de amostras e, por isso mesmo, os cientistas só os têm com precisão se retirarem em certos pontos específicos do satélite. As demais localizações são estimadas a partir da contagem de crateras, em que quanto mais antigo, mais esburacado é.

Os especialistas acreditam que mais pesquisas sobre as amostras devem auxiliar a responder as novas perguntas a respeito das atividades vulcânicas na Lua. Embora o seu protagonismo deva permanecer na China por mais algum tempo, passados dois anos desde o fim da missão, cientistas ligados a outras autoridades, como a Nasa, poderão solicitar fragmentos do solo para conduzir as suas próprias investigações.

(Arthur Almeida)

Astrogildo Aécio Nunes

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