Epidemia lucrativa

FERNÃO FRANCO
OBrasil, como bom país tropical, tem em quase sua totalidade territorial duas estações bem definidas: seca e chuva. Portanto, o calor e a água acumulada são dois componentes cruciais para uma bomba relógio chamada dengue.
Mas porque todos os anos, assim como Réveillon e Carnaval, a dengue continua sendo notícia? O problema é bem maior do que se pensa: o interesse político-financeiro por traz das epidemias anuais. Para o combate à dengue o poder público se utiliza de um exército municipal de Agentes de Combate às Endemias (ACE), cujo objetivo é educar a população e fazer o controle da larva do mosquito Aedes aegypti, pois o controle da forma adulta e alar com uso do fumacê é ineficaz.
Mas porque esse método não erradica ou controla a epidemia anual? Porque a população não se comove com palavras, a exemplo do cinto de segurança veicular, cuja obrigatoriedade só é cumprida porque a multa é pesada. Mas multar não é a única solução e também não agrada àquele cujo os políticos mais temem: o eleitor.
“Durante muitos anos a epidemia sustentou milhares de ACEs contratados que serviam também ao interesse da classe política pois poderiam desempenhar funções de cabos eleitorais paralelamente ao combate da dengue”
Além desse prejuízo político, durante muitos anos a epidemia sustentou milhares de ACEs contratados que serviam também ao interesse da classe política pois poderiam desempenhar funções de cabos eleitorais paralelamente ao combate da dengue.
Em Cuiabá e Várzea Grande e, muito provavelmente nos demais municípios de Mato Grosso e quiçá do Brasil, eles eram a solução para a carência de capital humano como motoristas, pessoal de limpeza, administrativo, entre outros desvios de função, pois poderiam ser contratados sem concurso público e muitos, após quase o dobro dos dez anos exigidos pela Lei, adquiriram a estabilidade do serviço público.
Os ACEs se organizaram em sindicatos e associações, às vezes conjuntamente aos Agentes Comunitários de Saúde, às vezes somente eles, servindo aos interesses políticos de vereadores, prefeitos e presidentes dessas agremiações, à exemplo de tantas outras classes de trabalhadores e profissões.
A vacina, que seria a solução para o controle efetivo da doença, era prometida pelo Instituto Butantã há décadas porém, os japoneses, mais eficazes que nós, se anteciparam e lançaram-na primeiro, tendo a ANVISA aprovado em março de 2023 e o Ministério da Saúde, em sua eficaz inércia paquidermal, disponibilizou apenas este ano, quase no fim das chuvas, para a população adolescente pois a idosa não teve a aplicação autorizada, cerca de 1,2 milhão de doses, ou seja, nem 10% da população total do País.
Então, fica o questionamento: os milhões gastos pelo Governo Federal, Estaduais e Municipais em papelaria, uniforme, EPIs, combustível, veículos, salários e agora a vacina são eficazes no combate à dengue ou apenas um negócio lucrativo.
Fernão Franco é servidor da saúde de Cuiabá em Vacância e Fiscal Estadual de Defesa Agropecuária
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